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Entrevista a Gustavo Behr, Novo Presidente da Casa do Brasil

Gustavo Behr, recentemente eleito presidente da Casa do Brasil em Lisboa, candidatou-se com o lema “Renovação e Compromisso”. Apoiar todos os brasileiros em termos de informação e encaminhamento, manter e ampliar os serviços disponibilizados aos sócios e intensificar as actividades na área cultural são alguns dos objectivos desta associação que se quer um ponto de encontro e intercâmbio dos brasileiros e também de outras comunidades. Qual tem sido até agora o papel da Casa do Brasil? A Casa do Brasil tem quinze anos e, ao longo da sua existência, tem vindo a adaptar-se às mudanças no perfil da imigração. Anteriormente, tinha um perfil sobretudo cultural; agora, sem ter perdido essa vocação, tem também uma vertente mais informativa, fornecendo ao imigrante instrumentos para entender a sociedade portuguesa e conseguir integrar-se. Desde que se começou a falar dos processos relativos à regularização, nos anos 90, a Casa do Brasil foi orientando o seu trabalho em função das necessidades dos imigrantes em Portugal. Actualmente, dirige-se a todos os cidadãos brasileiros que pretendam participar nas suas actividades. Para além da luta pelos direitos do imigrante no sentido de conseguir uma integração plena, pretendemos desenvolver uma actividade comum, criando aqui um lar, um lugar onde os brasileiros – mas, e isso é muito importante, também as pessoas pertencentes a outras comunidades - se sintam bem e possam conviver. Nesta Casa existe uma grande interacção, entre os brasileiros e entre estes e gente de outras comunidades, e todos se sentem bem aqui. É uma associação não só de brasileiros mas também de amigos do Brasil. O que significa ser sócio da Casa do Brasil? Uma das actividades mais importantes da Casa do Brasil está disponível para todos: a orientação das pessoas, uma primeira informação em que se explica quais são as instituições com as quais precisam de contactar, como é o processo de regularização, como se trata da renovação de documentos, etc.. Por outro lado, existem diversas actividades dirigidas para os sócios: o apoio jurídico, o centro de documentação e a biblioteca, o acesso à Internet, aulas de dança, aulas de inglês e, dentro de algum tempo, uma UNIVA [Unidade de Inserção na Vida Activa]. Pretendemos ainda reactivar o futebol e as actividades de divulgação da cultura brasileira. Irão verificar-se alterações significativas ao percurso seguido até agora? A Casa do Brasil tem um património que já está consolidado. É uma associação que tem muito crédito junto de todas as instituições que se relacionam com a imigração, e portanto nós pretendemos continuar um trabalho que tem sido bem feito. É isso o que significou o lema da sua candidatura, “Renovação e Compromisso? A renovação é procurar fazer melhor aquilo que tem sido feito. Por exemplo, é necessário ampliar o âmbito das actividades culturais, continuar o nosso processo junto da Plataforma das Estruturas Representativas das Comunidades de Imigrantes em Portugal (PERCIP) e também criar uma ligação com as outras associações de brasileiros em Portugal. Há por outro lado um compromisso com as actividades que já tínhamos anteriormente, numa perspectiva renovada. Quais são os projectos concretos? Há projectos que já estavam em andamento, como a questão da PERCIP, que já referi, com actividades previstas já para Abril. Estão também projectadas sessões de esclarecimento sobre vários temas, como Nacionalidade, Imigração, deveres com a Segurança Social e a Administração Fiscal, etc. E, para além de pretendermos fazer sessões de esclarecimento na Casa do Brasil, queremos também estar presentes com actividades aos núcleos onde existem comunidades, o que é uma novidade. Por outro lado, na área cultural, temos já agendadas sessões de cinema, com convidados que no final promovam um debate, e iremos organizar passeios temáticos. No fundo pretende-se não só divulgar a cultura brasileira, como também levar os brasileiros a conhecer um pouco das questões portuguesas. Um dos projectos que tem referido é o de procurar corrigir um certo estereótipo da mulher brasileira... Penso que se criou erradamente um estereótipo e, infelizmente, a tendência tem sido para que essa ideia se consolide. Nós pretendemos desenvolver um grande esforço para mudar a maneira como as pessoas vêem a mulher brasileira. É um trabalho que se faz sobretudo através da informação e da divulgação dos factos. Não há uma apetência natural da mulher brasileira por certas actividades, existem é vítimas de situações dramáticas. Como tem evoluído a situação da comunidade brasileira em Portugal? Penso que a situação é semelhante à que existia há algum tempo atrás. Tivemos aquela grande alegria que foi o chamado “Acordo Lula”, que regularizou muita gente, mas as pessoas continuaram vindo e, neste momento, existe muita gente em situação irregular. Com isso, surgem situações de precariedade laboral e de precariedade de vida. Seria importante criar alguma possibilidade de as pessoas se regularizarem em Portugal, porque a irregularidade traz consigo a dificuldade de acesso aos direitos. Neste momento, há pessoas que não conseguem ter acesso aos direitos básicos, como a saúde, um trabalho em que tenham um mínimo de garantias, etc.. A questão é que existe procura do cidadão imigrante para trabalhar, as pessoas são contratadas, e seria muito importante que se pudessem regularizar. Pensa que a falta de informação contribui para essa situação? Existe falta de informação. E também, com toda a compreensão que eu tenho pelas dificuldades que esta situação envolve, as pessoas não se conformam com as informações que recebem, com o facto de existir esta grande incongruência, de que é possível descontarem para a Segurança Social, pagar impostos, mas não é possível regularizarem-se junto do SEF. As possibilidades de acesso à nacionalidade portuguesa conferidas pela nova Lei têm interessado a comunidade brasileira? Há brasileiros muito interessados nessa questão, com grande expectativa sobre se esse processo poderá ser feito através dos consulados no Brasil. O “Sabiá”, o jornal da Casa do Brasil, vai-se manter? O “Sabiᔠé um projecto fundamental e que se irá manter. É um veículo importantíssimo de informação. Já teve vários formatos. Nos últimos tempos tem sido publicado bimestralmente, com uma tiragem de 5000 exemplares. Em algumas ocasiões excepcionais a tiragem chega aos 7500 exemplares. Gustavo Behr, o novo presidente da Casa do Brasil Gustavo Behr é originário de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e está em Portugal há 19 anos. Veio por quatro anos, um prazo que na altura considerou “uma eternidade, impossível de aguentar”. Depois, a decisão de ir ficando foi sempre sendo feita por pequenos passos: começou por completar o ensino secundário e, “já que estava aqui”, frequentou o curso de Direito na Universidade Católica Portuguesa, fez o estágio na Ordem dos Advogados e acabou por se integrar profissionalmente em Portugal como advogado, tendo já trabalhado nessa qualidade em questões relacionadas com a imigração. Com este percurso, Gustavo Behr considera pertencer aos dois lados do Atlântico. Tem muita família no Brasil, com quem comunica com frequência, mas a sua vida acabou por ser aqui, “e o regresso seria muito difícil”. Para mais informações sobre a Casa do Brasil de Lisboa, consultar a Internet em: www.casadobrasil.info

Publicado: Quinta, 15 Fevereiro, 2007

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