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Crianças aprendem a língua dos pais ao fim-de-semana

As escolas estão espalhadas por onde há comunidades imigrantes e foram criadas pelas respectivas associações. "Servem para comunicar com a gente da nossa terra, para aprendermos as nossas tradições e a nossa História", resume a directora de uma delas. E para aperfeiçoar conhecimentos em várias áreas. Os alunos são de origem ucraniana, russa, romena, chinesa. Nem todos chegam à sexta-feira a suspirar por um fim-de-semana sem livros, cadernos, professores e salas de aula. Aos sábados - e nalguns casos ao domingo - muitas crianças e jovens voltam à escola, só que em vez das disciplinas convencionais vão aprender russo, ucraniano, romeno ou chinês. Uns falam correctamente a língua materna mas não sabem escrevê-la. Outros percebem o que os mais velhos lhes dizem mas não conseguem responder. Alguns têm uma vaga memória dos falares de uma terra longínqua; dizem uma palavra aqui, outra acolá, mas é o português que impera no seu discurso. Em comum têm o facto de ser filhos de imigrantes. São várias as associações que promovem aulas de idioma e ciências exactas. Para ajudar à integração das crianças mas também porque o sistema de ensino português "não é tão bom quanto os do Leste", por exemplo, dizem alguns dos professores contactados. E convidam: as aulas estão abertas a quem estiver interessado em aprender as línguas ali ensinadas. Lisboa, Porto, Gondomar, Aveiro, Portimão... As escolas estão espalhadas um pouco por onde há comunidades imigrantes e foram criadas pelas respectivas associações. Funcionam em estabelecimentos de ensino público, juntas de freguesia ou instalações das organizações. Saber português por causa das amas São escolas com aspas, diz o padre ortodoxo romeno Marius Pope; porque só funcionam ao fim-de-semana, porque os alunos faltam, porque muitos dos professores não são profissionalizados, são voluntários. Mesmo com um único dia de aulas por semana, há quem queira estabelecer protocolos com os ministérios da Educação de Portugal e do seu país de origem, para reconhecer o que as crianças aprendem. É o caso da Escola Ucraniana de Lisboa, que desenvolveu um projecto em tudo semelhante a uma verdadeira escola convencional: com professores, uma enfermeira, manuais, todas as disciplinas e avaliação contínua. Sábado, a partir das 10h00 da manhã, na Junta de Freguesia de Rio Tinto e na Escola Superior de Educação Paula Frassinetti, no Porto, as aulas começam para quase uma centena de estudantes dos seis aos 16 anos. São filhos de russos e ucranianos, que aderiram ao programa da Associação de Imigrantes de Gondomar. Aprendem os dois idiomas, Cultura e Festas Tradicionais, Trabalhos Manuais e Matemática. Os professores são profissionais e pagos. Os alunos, filhos dos sócios, pagam 20 euros anuais. Os livros com que as escolas trabalham foram oferecidos pela Embaixada da Ucrânia. "É mais difícil com os russos, não temos contacto com a embaixada", lamenta Natalia Vaskovska, presidente da associação. Há três anos que as duas escolas funcionam e a ambição é abrir mais uma, em Paredes. O objectivo principal é que as crianças não esqueçam a herança deixada nos seus países, explica Natalia Vaskovska. As aulas terminam às duas da tarde. À Junta de Freguesia de São Bernardo, a quatro quilómetros de Aveiro, chegam meninos que vivem mais tempo com as amas portuguesas do que com os pais. À Escola Chinesa de Lisboa também: os pais dos alunos trabalham dia e noite nas lojas e nos restaurantes e as crianças permanecem em casa das amas e por isso dominam o português correctamente. Lyudmila Bila, presidente da Associação de Apoio ao Imigrante de Aveiro, é directora da escola de São Bernardo, a funcionar desde Outubro de 2003, e professora de russo na Universidade de Aveiro. São pouco mais de 20 os alunos, dos sete aos 15 anos, que ao domingo vão às aulas na junta. Para alguns a freguesia fica longe e como os pais trabalham ao fim-de-semana a matéria pode ser dada "por correspondência", ou seja, levam trabalhos para casa, para fazer durante as semanas em que vão estar ausentes. Na escola de São Bernardo há duas turmas de primária, uma de russo e outra de ucraniano, e uma outra para os mais velhos. As disciplinas vão além das línguas. Três horas semanais chegam para ensinar Matemática, História e Literatura, Tradições Eslavas, mas também Língua Portuguesa, História e Tradições de Portugal. Todas estas cadeiras servem "para que as crianças se integrem melhor, sejam bons cidadãos e não esqueçam a cultura dos seus países", explica Lyudmila Bila. "A escola é um milagre onde se aprende tudo" É esse também o principal objectivo dos dez, às vezes, 40 romenos que ao sábado e domingo vão à escola do 1.º ciclo, perto do Largo do Caldas, em Lisboa. O projecto tem quatro anos, mas funciona naquele espaço há apenas um ano. Língua, Literatura, Religião, História, Geografia e Matemática - as disciplinas são adaptadas ao ensino português para ajudar à integração dos alunos, do jardim de infância aos 16 anos. O principal problema com que a Associação Cultural dos Romenos Mircea Elíade se debate é a falta de transportes para quem vem de longe, informa o padre ortodoxo Marius Pope. É o que mais desmotiva os pais. Também na básica de 2.º e 3.º ciclos Pedro Santarém, em Lisboa, o sábado é um dia ocupadíssimo: das 9h00 às 16h00 para os mais novos e às 18h00 para os do secundário as aulas na escola ucraniana não param. Os 160 alunos, dos cinco aos 16 anos, vêm de Almada, Barreiro, Carregado, Mafra, Setúbal, Sintra. As disciplinas são exactamente as mesmas que na Ucrânia, há trabalhos de casa e exames. "A escola serve para comunicar com a gente da nossa terra, para aprendermos as nossas tradições e a nossa História", resume a directora e antiga professora liceal Olesya Nazarenko. É por isso que o nome original da escola é "Dyvosvit", que quer dizer "Milagre do Mundo". Porque "a escola é um milagre, onde não se aprende só a matéria escolar, mas tudo". Por que é que além das línguas maternas algumas escolas para crianças de origem estrangeira também oferecem Matemática? Porque os pais pedem. "A nossa metodologia de ensino é melhor que a portuguesa", responde sem hesitar Lyudmila Bila, presidente da Associação de Apoio ao Imigrante de Aveiro. Esse é um dos motivos porque estas crianças têm melhores resultados que as portuguesas, continua. "Nos países do Leste valorizamos os estudos. Os pais emigraram para poder educar os seus filhos e querem o melhor para eles." Segundo o relatório Situação escolar dos alunos cuja língua materna não é o português, elaborado com base em dados de 2003/2004, há cerca de 120 nacionalidades diferentes nas escolas públicas portuguesas. E os resultados desses alunos são maioritariamente satisfatórios (60 por cento); 20 por cento têm notas boas e os restantes têm resultados não satisfatórios. Perto de dois terços dos estabelecimentos de ensino portugueses têm alunos estrangeiros - cerca de 80 mil. Mas nem tudo corre bem. "A escola portuguesa é mais ligeira e no entanto as crianças passam mais tempo nas aulas do que na Roménia. Lá as aulas terminam ao meio-dia ou às duas da tarde, depois fazem os trabalhos de casa e a seguir têm tempo para ser crianças. Aqui quando chegam a casa já é de noite e ainda vão fazer os trabalhos", retrata Marius Pope, da Associação Cultural dos Romenos Mircea Elíade. Quando os romenos chegam à escola portuguesa são "os primeiros" e quando voltam à Roménia têm dificuldades e podem mesmo não conseguir passar de ano, diz ainda. A falta de disciplina é outra das críticas feitas ao sistema português. Chen Xiaohong, directora da Escola Chinesa de Lisboa e professora de Chinês no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, diz que se perde "muito tempo a mandar sentar e calar" os meninos de origem chinesa que estão nas escolas portuguesas. "Na China há mais disciplina, aqui é difícil começar a aula." Numa sala de aula ucraniana, a única pessoa que fala é o professor; os alunos têm de pedir licença para fazê-lo e não andam de pé, de um lado para o outro, descreve Olesya Nazarenko, directora da Escola Ucraniana de Lisboa. Também há mais estabilidade do corpo docente, são os mesmos professores que acompanham os alunos do 5.º ao 12.º ano, o que é melhor porque já conhecem as qualidades e os defeitos de cada um deles, analisa. Além disso, há muitos trabalhos para casa - não só fichas, mas textos para ler e investigar. Os estudantes têm dois cadernos por disciplina, que usam de maneira intercalada para que os professores possam levá-los para casa e fazer as devidas correcções e avaliações. Cá não, compara. No recreio brinca-se em português, na sala falas-se em mandarim Andam na Escola Chinesa de Lisboa para saber falar a língua dos pais ou para, pura e simplesmente, lhes fazer a vontade. Ao sábado, muitas crianças e adolescentes de origem chinesa reúnem-se nestas aulas. Aprender o idioma não é fácil, admite a directora da escola. À medida que a dificuldade aumenta as turmas perdem alunos. De camisolão branco com um capuz de uma marca que faz lembrar a praia e o surf, Gerson, de 14 anos, está recostado na cadeira a ouvir um colega a ler. Noutra sala as amigas Sara e Xinyi, de cinco e seis anos, lêem as palavras escritas no quadro. Na antiga escola primária do Bairro das Colónias, em Lisboa, ao sábado só há meninos chineses a correr, a brincar. Os mais pequenos gritam e riem, os mais velhos falam em português. É a Escola Chinesa de Lisboa, que só funciona neste dia da semana. Na sala 5 estão os mais pequenos, com cinco e seis anos. As 15 carteiras de dois lugares estão lotadas. Eles com os cabelos pretos muito espetados, elas com os cabelos brilhantes, bem penteados e cheios de ganchos e molas coloridas, seguem atentamente o que a professora e directora da escola lhes ensina. Chen Xiaohong, com um longo ponteiro de bambu na mão, vai debitando as palavras no quadro, projectadas a partir do computador portátil. Quando pára, há 30 vozes que lhe sucedem numa cantilena ritmada. O que estão a aprender? "Não sei... Acho que é sobre a história da China", responde Magno, 12 anos, atrapalhado. Ele, o irmão Filipe (10 anos) e Quian (11) são dos mais velhos, sentados na última fila, porque estão menos familiarizados com o idioma. Os mais pequenos já nasceram em Portugal. Em casa falam português ou o dialecto da terra dos pais - poucos sabem mandarim, explica a directora. Foi em 2000 que as aulas em Lisboa começaram, apenas para 17 alunos, nas instalações da Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa. Este ano, a Associação para a Promoção do Ensino das Línguas Chinesa e Portuguesa fez um protocolo com a autarquia e mudou de instalações. Os alunos, dos quatro aos 17 anos, já são 200. Ao sábado aprendem mandarim, caligrafia e dança chinesa. Saber 2000 palavras em três anos Onde existe uma comunidade chinesa há uma escola; em Portugal é conhecida pelo menos mais uma, no Porto, diz Chen Xiaohong, que lamenta que não existam outras experiências semelhantes, mas que assume que "aprender chinês é difícil", mesmo para os descendentes. Primeiro aprende-se a falar e a ler e só depois a escrever. São precisos dois a três anos para saber dois mil caracteres, ou seja, duas mil palavras. Com esse mínimo já é possível compreender 95 por cento do que se lê - um dicionário pode ter mais de dez mil caracteres, explica. Também é por ser difícil que tão poucos chegam à turma dos mais velhos. À medida que a dificuldade aumenta o número de alunos diminui. Zhemin Ding, professor voluntário, há um ano em Portugal, a trabalhar numa multinacional, explica que procura motivar os alunos através da discussão de textos como o que ontem trabalhavam: uma notícia de uma revista norte-americana. Os três alunos, de 16 anos, lêem e debatem o desenvolvimento económico e como é que os ocidentais olham para a China. Tudo em mandarim. Na sala 10 os livros estão abertos, mas os alunos aprendem a fazer dobragens em papel. Das suas mãos saem complexas torres de papel que empilhadas se transformam num pagode chinês. Xi, uma menina de 14 anos, gosta de ler os textos que contam lendas. Os amigos chineses não são muito diferentes dos portugueses, confessa. E tem razão. As vozes noutra sala ouvem-se do corredor: "Queres guerra? Vais morrer!", "És tão inocente!", "Pára com isso, seu estúpido!". Há bolas de papel e bocados de borracha que voam, que a professora finge não ver. Alheia ao burburinho, continua a avaliação à leitura. Há um grupinho que não está com atenção. A professora, que não fala português, pede a um deles que leia. "Diz-lhe que te esqueceste do livro", incentiva um. "Diz que não sabes ler", exclama o outro. Gerson ri-se, mas lê. Bem. No final da aula, os adolescentes confessam que estão ali porque os pais querem, que tudo aquilo é "uma perda de tempo". Por fim, mais sérios, dão o braço a torcer: "Sim, é importante aprender chinês Bárbara Wong 28 de Janeiro de 2007 Público

Publicado: Tera, 30 Janeiro, 2007

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