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Nasceu na Argélia e cresceu na Guiné-Bissau

Nasceu na Argélia e cresceu na Guiné-Bissau

Matias Sousa é mais um rosto de imigração. Entre idas e vindas encontra-se radicado nos Açores desde 2007. Tem uma paixão quase que inexplicável pelas Furnas e sente-se muito bem acolhido pelos açorianos.

Nasceu onde? Eu nasci na Argélia, mesmo na capital Argel. Segundo o que o meu pai contava, foi no tempo da perseguição da PIDE. Como havia aquela perseguição, o meu pai enviou a minha mãe para a Argélia, mesmo antes de eu nascer.

Faça-nos um breve resumo da sua vida e do seu percurso migratório. Eu quando vim da Argélia para Guiné-Bissau cheguei a ir para Bolama e no fim de dois anos, nesta ilha, regressei à Guiné-Bissau. O meu pai e o meu tio tinham uma oficina de carpintaria e eu com 11 anos de idade já fazia qualquer coisa na oficina porque tinha de trabalhar. Com 13 anos fui considerado um profissional de marceneiro. Quando terminei o oitavo ano de escolaridade em Bolama, fui para Guiné-Bissau fazer o nono ano, em 1985. E foi nesta altura que fiquei de vez em Guiné. Eu lá trabalhei como carpinteiro numa empresa que era um consórcio entre Guiné-Bissau, Suécia e Holanda. Aí mandaram-me para Estocolmo, Suécia, para fazer um estágio de 3 meses. Terminado o estágio regressei para Guiné. Passados uns meses fui para a tropa, cumpri o serviço militar e automaticamente emigrei para Portugal em 1988. Isto porque tinha de ser operado a um joelho em Verona, Itália. Fiz a operação, fiquei lá 6 meses, vim para Portugal, depois voltei para Itália e regressei de novo a Portugal em 1989. Passados alguns anos, fui para Espanha e trabalhei no aeroporto Barajas, em Madrid, lá vivi cerca de dois anos. Em Maio de 1998 fui de férias para Guiné-Bissau, mas antes de ir para lá, fui para a Alemanha comprei um carro e mandei para Gâmbia, porque naquele tempo a taxa alfandegaria de Gâmbia era mais barata em relação à de Guiné-Bissau. Neste período, em que eu ia e vinha da Guiné, deu-se a guerra. Cheguei à Guiné dia 7 de Maio e guerra deu-se no dia 7 de Junho. No início tirei a minha família toda de Guiné-Bissau e mandei-lhe para as ilhas, fui com ela mas depois regressei.

O que o motivou a regressar? O que me motivou a regressar foi aquilo que vi quando sai de Guiné-Bissau, vi coisas que ainda hoje não consigo tirar da cabeça. E a minha motivação era mesmo esta: tenho de defender este povo, tenho de defender esta família que está a morrer assim. Já tirei a minha família toda, agora tenho de ir para o outro lado combater contra aquela maldade.

Aqui nos Açores sente-se bem acolhido por este povo? Nos meus 22 anos de emigração sinto-me melhor nestes últimos 3 anos que radiquei cá nos açores do que no tempo em que estive em Lisboa. Sinto-me melhor com as pessoas de cá, porque é um povo mais humilde. Especialmente, os que vivem nas furnas. Já sentiu algum tipo de discriminação social? A discriminação sente-se em todo o mundo. Cá nos açores também se sente, mas não é muito assumido, porque as pessoas reflectem que também elas são um povo emigrado e, por isso, não demonstram muito.

Como se encontra neste momento aqui nos Açores? Ora bem, ora mal porque a minha saúde não está bem e porque tenho outros problemas. Neste momento não consigo trabalhar, pois cada vez que tento trabalhar a saúde não permite.

O que sente mais falta da Guiné? É a convivência com os colegas, sair de casa de manhã e não se preocupar com nada, voltar à noite ou só no outro dia, ir à casa dos colegas como se fosse a minha casa, a porta aberta para todos, isto é coisa de África porque lá todos são irmãos.

Para o futuro pretende ficar cá nos açores ou regressar a Guiné-Bissau? Se for para ficar no território português, prefiro ficar aqui nos Açores. Mas se for para ficar na Europa prefiro ficar na Holanda.

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