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É ucraniana e vive nos Açores há 8 anos. Nunca tinha visto tanto mar na sua vida e apaixonou-se desde início pela ilha e pelo mar.

É ucraniana e vive nos Açores há 8 anos. Nunca tinha visto tanto mar na sua vida e apaixonou-se desde início pela ilha e pelo mar.

 

RC - Como foi tua chegada?

N- Vivi junto de uma vila, num monte onde se criava o gado. Por falta de conhecimento de língua, foi o único sitio em que fui aceite. Era uma tarefa dura, principalmente para mim, menina crescida numa cidade grande, longe de vida do campo. Mas tudo tem o seu lado positivo, pois agora posso dizer que foi uma boa lição para mim. Trabalhei com três mulheres portuguesas, muito mais velhas do que eu, e que faziam esse tipo de trabalho desde miúdas. E o mais chocante para mim foi vê-las felizes, com os seus sonhos não realizados, mas felizes. Exploradas fisicamente e discriminadas de uma forma indirecta, pois trabalhavam em igualdade com os homens, mas sendo mulheres, tinham salários substancialmente inferiores; mas elas continuavam felizes. Será que eu sou de outro planeta, questionava-me sempre? Sendo por natureza defensora dos direitos das mulheres (pois sou uma delas), durante a minha estadia nesse monte fiz várias tentativas para mudar a opinião das minhas amigas, em relação ao trabalho, de forma como são tratadas, infelizmente sem sucesso. Foi triste saber que elas não queriam lutar, pois já tinham ouvido por várias vezes: “ Há sempre alguém para o seu lugar...” Mas eu arrisquei. O meu espírito lutador não me deixou ir abaixo, e um dia despedi-me dos meus primeiros amigos portugueses. Fico lhes grata para sempre, por toda ajuda e apoio incondicional que me deram. Desde então, corri um pouco de Portugal. Vivi algum tempo no centro de país, na ilha de Madeira, e por fim em Évora. Durante esse período tive oportunidade de conhecer o país, a história e, sobretudo, a cultura de povo que me acolheu.

RC - E como se dá a tua vinda para os Açores?

N- Dizem que nada na vida acontece por acaso. Um dia, como era habitual, lendo o jornal “Slovo” publicado em russo, encontrei um anúncio, a recrutar pessoas para trabalhar numa empresa privada, na ilha de São Miguel. Estando sempre a procura de algo melhor mas sem grandes expectativas para o sucesso, pois as vagas oferecidas não eram para trabalho qualificado, tentei a minha sorte. Penso que o que estava realmente a procura naquela altura, era mais o lugar em que eu pudesse sentir-me bem, construir o futuro. Foi assim que vim para São Miguel no Verão de 2002.

RC - E quais foram as tuas primeiras impressões?

Vou ser sincera, desde o início adorei a ilha e o mar. Nunca tinha visto tanto mar. Lembro me partilhar as emoções com a minha mãe: “ Deves vir até aqui, isto é o máximo! “

RC - E no trabalho correu tudo bem?

N - Quando as pessoas chegam a um sítio desconhecido, seja para que fim for, existe um período de “experiência”, se é assim que podemos chama-lo. Durante o primeiro ano em que vivi em São Miguel, fazia limpeza na empresa que fizera o tal anúncio. Mas esse ano não passou em vão, pois tive pequenas oportunidades em que pude demonstrar o que sou capaz de fazer. Um ano depois optei por abandonar a função que exercia. Quando comuniquei a minha decisão à administração da empresa e para muito espanto encorajaram a minha opção, sugerindo, no entanto, uma possibilidade de voltar à integrar na empresa após aquisição da formação necessária para uma nova função na empresa. Ai percebi, que se não tivesse arriscado, não teria esta nova oportunidade. No curto prazo do tempo empenhei-me em obter a formação mínima necessária para desempenhar as novas tarefas. Após a formação voltei a mesma empresa na qual continuo a trabalhar desde então. A empresa trabalha no ramo de comércio e turismo. A minha função inicial era de recepcionista mas aos poucos vi as minhas funções a serem alargadas. Foram-me atribuídos alguns assuntos importantes e de grande responsabilidade e confiança, facto que demonstraram me que o meu trabalho era estimado e que o empenho e dedicação não foram em vão. De momento a minha função esta ligada a gestão da mesma, ficando por trás muitos degraus na minha subida para concretização do meu objectivo.

RC - Queres deixar uma mensagem para os nossos leitores?

N – Quando começamos a trabalhar em algo, mesmo se isso não nos agrada, acabamos por nos habituar e aos poucos desaparecem os nossos sonhos, esquecemos de quem queríamos ser e transformamo-nos em máquinas. Devemos arriscar, devemos viver as experiências e, sobretudo, devemos acreditar em nós próprios. Eu tive a minha oportunidade, como também tive os meus amigos que me apoiam muito, que acreditam em mim.

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