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“Só nós sentimos o cheiro da nossa terra”

“Só nós sentimos o cheiro da nossa terra”

Maria Rodrigues Costa tem 60 anos e nasceu na ilha de Santiago em Cabo Verde. Em 1972 emigrou para Portugal para acompanhar o marido. No início tinha a esperança de um dia poder regressar, mas hoje está satisfeita com o seu percurso e sente-se um pouco açoriana.

Lolita, como a conhecem na Terceira e em Cabo Verde, diz que saiu do arquipélago cabo-verdiano porque se casou com um açoriano que era militar em Cabo Verde. “Ele fez o serviço militar lá, namoramos, casamos e terminado exército tive que o acompanhar no regresso à sua terra”.

Chegou aos Açores em setembro de 1972, “mas na altura sempre com esperança de voltar”. “Nunca pensei em vir viver para cá e emigrar não estava nos meus projetos de vida”, disse.

O conhecimento que tinha dos Açores foi-lhe apenas facultado na escola pela disciplina de Geografia. Por isso, quisemos saber como foi a sua reação quando chegou aos Açores.

Antes de chegar à ilha Terceira viveu durante dois meses em Lisboa, onde tem família e, segundo Lolita, “correu muito bem”. Na ilha de Jesus foi mais complicado. “Para além da família do meu marido não tinha mais ninguém”, contou. Por outro lado, achou a Terceira uma ilha bastante semelhante à sua e isso contribuiu para a sua integração. “Senti-me bem recebida e não sofri qualquer preconceito”.

Ainda sobre a sua adaptação, acrescenta que por um lado rapidamente fez amigos, mas que por outro estranhou muito o clima. “Como em Cabo Verde quase não chove, fiquei com a perceção que aqui chovia quase todos os dias”.

Sobre os açorianos, responde que os acha “um pouco diferentes dos cabo-verdianos”. E para dar um exemplo conta: “todos os anos vou a Cabo Verde de férias e levo sempre casais amigos dos Açores para conhecerem a minha terra. Nós notamos uma grande espontaneidade nas pessoas, simplicidade e muita alegria. Os meus amigos ficam admirados como essas pessoas não têm muito, mas são felizes. Aqui têm muito mais, mas muitas vezes não estão satisfeitas”.

Perguntamos a Lolita se costuma ir à terra que a viu partir há 40 anos. “Quando vim para cá, fiquei cerca de 25 anos sem ir a Cabo Verde. Entretanto, comecei a ir ao Congresso da Diáspora com o Doutor Óscar Reis e a partir daí passei a ir todos os anos”. Esta cabo-verdiana tem três filhos nascidos nos Açores e, apesar de serem açorianos, refere que “sentem alguma ligação com Cabo Verde”.

Das memórias que guarda do seu passado na ilha de Santiago, recorda “as festas, o mercado, as praias, o clima maravilhoso e o cheiro característico daquela terra, que ninguém sente, mas nós sentimos – o cheiro da nossa terra”. Sente saudades de tudo mas principalmente dos encontros com os amigos e família.

Dos 40 anos de percurso de vida nos Açores, o balanço que faz é positivo. Diz ter sido complicado deixar a sua terra, mas que dentro do possível correu bem e está satisfeita. “Na Terceira nasceram os meus filhos e passados quatro anos de residência na ilha comecei logo a trabalhar”. Lolita trabalhou durante cinco anos na Secretaria Regional da Educação e Cultura, mudando-se depois para a Caixa Geral de Depósitos, onde trabalhou até então.

Os cabo-verdianos que desde dos anos 70 chegaram à ilha Terceira tiveram o seu apoio e hoje Lolita é acarinhada e uma referência para todos eles. Ela própria refere que “há uma grande união entre os cabo-verdianos que cá residem”.

Para atenuar as saudades que sente da sua terra, diz que mantém os seus hábitos culturais. “Em casa geralmente faço muita comida cabo-verdiana”. Quanto ao vestuário refere que gosta muito de vestir túnicas, as designadas bubus, que se veste em Cabo Verde. “Para me sentir bem é a vestir aquilo”.

Hoje diz muita vez que “se não tivesse cá os netos e os filhos era capaz de voltar”. “É onde eu ainda me sinto bem”. Nos Açores, refere que é uma é uma pessoa mais retraída, porque sente que as pessoas por não a conhecerem não confiam tanto. “Acho que não somos tão abertos, como somos na nossa terra”.

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