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“Este é o único sítio onde encontrei sossego e paz”

“Este é o único sítio onde encontrei sossego e paz”

Maria Juliana, mais conhecida por Júlia, tem 63 anos e nasceu em Angola, na província de Cunene. Em 1975, por consequência da guerra que assolava o seu país, teve de partir para Portugal. Hoje, encontrou sossego em Santa Maria.

A conversa começa, precisamente, sobre o processo de saída de Angola. Júlia chama o marido para lhe ajudar a relembrar determinados aspetos. António Rodrigues de 64 anos é um português transmontano que emigrou para Angola com apenas 12 anos. “Partimos para Namíbia e lá ficamos um mês. Eu pensava que depois voltaríamos para casa”, conta Júlia. Mas isto não aconteceu, a situação piorou e surgiu a hipótese de partir para o território português. “Quem quisesse voltar para trás voltava”. Mas, António preferiu voltar para a sua terra e Júlia, já com um filho de 4 anos nos braços, achou bem em acompanhá-lo.

Do percurso até ao navio que os levaria a Portugal, relembra o maior susto que apanhou na sua vida. “Estávamos no campo de concentração à espera da nossa vez para apanhar a camioneta. Quando chegou a nossa altura de entrar reparo que não tenho o meu filho comigo. A criança, com aquele calor, encostou-se a um contentor e adormeceu. Acabamos por encontrá-lo, mas apanhei um grande susto e nunca mais me esqueço deste dia”.

Esta foi a primeira vez que a então jovem angolana tinha partido da sua terra. Recorda que ao entrar no barco, viu pela primeira vez uma televisão. “Não sabia o que era, só via uma lâmpada grande”.

O navio atracou em Portugal no dia 18 de setembro de 1975.Júlia não necessita de um gravador para recordar esta data. E como foi a chegada? “Sofri muito de saudade, por não saber aonde estava e para onde ia. Chorei durante muitos anos”.

Nos primeiros dias, o estado português disponibilizou aos refugiados e retornados um campo, “onde dormiam portugueses e angolanos no chão”. Depois, passaram-se para a Costa da Caparica e lá ficaram a viver durante dois anos num hotel, onde nasceu a segunda filha deste casal. Em Angola, António, para além de consertar rádios, trabalhava também em meteorologia e, por esta altura, foi chamado para trabalhar em Porto Santo. Mais uma vez Júlia acompanha o esposo. “Vivemos na Madeira dois e lá nasceu o nosso terceiro filho”.

Mais tarde, surge a oportunidade para se transferirem para os Açores. “No início fiquei sem saber se deveria ir ou ficar, mas depois pensei se saí da minha terra com ele, então para onde ele for também vou”, conta.

De todos lugares que já viveu em Portugal, esta angolana diz que a ilha do sol é o sítio onde mais gostou de viver. “Falta um ano para o meu marido ir para a reforma e está a pensar em voltar para a sua terra e isto já me está a doer outra vez. Este é o único sítio que encontrei sossego e paz”, acrescenta. Em Santa Maria, diz que sempre se sentiu bem recebida.

De Angola diz que sente saudades da sua “família e da terra”. A guerra fê-la perder o contacto com os familiares e hoje pouco ou nada sabe deles. “Estou a tentar descobrir como estão, mas ainda não tenho informação correta”. A única notícia que teve da família, através de uns angolanos que conheciam a sua região, não foi feliz. Ficou a saber que a sua mãe e o seu irmão mais velho já tinham falecido.

Quanto a regressar responde que adoraria ir a Angola para ficar “mais aliviada”. “Não quero morrer sem saber da minha família e sem ver a minha terra. Se não for, vou viver uma vida inteira com esta mágoa”. Por outro lado, esta viagem às origens terá de ter um retorno aos Açores. O coração de Júlia está hoje dividido. “Além de gostar da minha terra e de ter muitas saudades de minha família, estou divida pela vida que criei aqui”.

Depois de 37 anos fora do seu país, conta que ainda hoje chora por ter saído. “Mas na vida estou bem”. Sente-se bem por esta ter sido a terra que lhe deu sossego porém, pessoalmente diz que se sente angolana. “Ao mesmo tempo parece que estou esquecendo a minha terra. Ganhei mais amor a esta ilha, mas mesmo assim o meu coração estará sempre em Angola”.

No Cunene ficaram as memórias de infância, “do tempo da fruta, do natal e ano novo em família” e a língua da terra, o Umbundo. “Por vezes sonho com este passado”.

 

 

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