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“‘A Partida’ acompanha-me sempre”

“‘A Partida’ acompanha-me sempre”

Eurico Correia é natural da ilha de Santiago, Cabo-Verde. Em 2002, rumou para Portugal com apenas cinco euros “no bolso”, com o objetivo de estudar. Hoje, é gestor, está casado com uma brasileira e já tem um filho açoriano. O caminho até aqui foi “tortuoso”.

Este cabo-verdiano foi o nosso convidado no programa “O Mundo Aqui” do passado dia 24 junho. A edição iniciou com uma música selecionada pelo entrevistado, “Partida” de Cesária Évora. Porquê esta música? “Gosto bastante das mornas, mas desta em especial, porque a letra tem a ver com a com a saída e com todos os problemas inerentes à imigração”, respondeu.

Eurico saiu de Cabo Verde rumo a Portugal, no dia 27 de novembro de 2002 - data que nunca esquecerá - com o intuito de continuar os seus estudos superiores Na carteira trouxe simplesmente cinco euros, que por azar do destino foram roubados à saída de Cabo Verde. “Tinha os posto dentro dos livros que comigo trazia e quando os abri já não encontrei o envelope com o meu dinheiro. Fiquei bastante desapontado”, conta. Segundo Eurico, aquela nota tinha um propósito: quando chegasse a Lisboa comprava um cartão para contatar com o seu irmão a avisar que já tinha chegado. Valeu-lhe o auxílio do gabinete dos perdidos e achados. “Pelo menos tinha o número de telefone na mala e lá eles fizeram a ligação”.

O objetivo de continuar os estudos superiores em Portugal não foi fácil de alcançar. Tal como nos contou, a sua chegada ao país lusitano com uma simples vaga na universidade, sem bolsa de estudo, “nem compromisso de alguém” que quisesse apoiar os seus estudos, fez com que tivesse de “passar por um caminho tortuoso”. “Eu sabia que ia passar por um período difícil, tinha que trabalhar e não ia conseguir estudar imediatamente, mas o objetivo foi sempre este”, acrescentou.

Para além dos estudos, a outra razão que incentivou a sua partida prendeu-se com a procura de novas oportunidades para o seu futuro. “Nós somos 17 irmãos e eu comecei a olhar um pouco para o meu percurso”. Tinha terminado o 12º ano e estava a trabalhar num armazém, mas ambição e o sonho de querer prosseguir os estudos, fê-lo emigrar. “Comecei a ver que não tinha muitas oportunidades em Cabo Verde. Quando consegui a vaga, decidi logo fazer todo o esforço para ir estudar fora, sendo também uma oportunidade para abrir novos horizontes e conhecer novas culturas”, conta.

Passado um ano em Lisboa, entre os estudos e o trabalho, Eurico Correia conhece a sua atual mulher, natural do Brasil. “Tornamo-nos grandes amigos e mais tarde decidimos tornar esta amizade mais duradoura”, disse. Entre namoro, noivado e casamento contam-se já cerca de nove anos.

Sobre o facto de terem o mesmo percurso, refere que se identificam muito como imigrantes. “Tínhamos praticamente os mesmos problemas de alojamento, o trabalho e a regularização”. Por outro lado, a partilha da mesma religião, Adventistas do Sétimo Dia, fez com que este casal se aproximasse ainda mais. “Frequentávamos a mesma igreja, o que facilitava bastante o nosso encontro semanal”.

Porém, em 2006, a sua esposa recebe um convite para trabalhar em São Miguel. Inicialmente, por um período curto de tempo. “Nós tínhamos casado há cerca de 3 meses e não queríamos ficar muito tempo separados”, acrescenta. No entanto, a natureza fê-la apaixonar pela ilha e a considerar este arquipélago um lugar ideal para se viver. Eurico refere que no início se sentia receoso com a ideia, mas agora consegue confirmar a “publicidade” que a mulher lhe fez dos Açores. “Não foi apenas uma publicidade porque na realidade é um lindo arquipélago, a natureza é encantadora e o povo é bem diferente, vale sempre a pena conhecer”.

Dos contributos mais positivos que teve ao longo ao seu percurso, sublinha o seu casamento, o nascimento do seu filho e a própria vinda para os Açores. “Aqui tive mais oportunidades, mesmo nos momentos mais críticos”. Por outro lado, aponta a burocracia que existe em Portugal para a legalização de um imigrante como um pontos negativos do seu percurso.

Apesar do caminho tortuoso, hoje, reconhece que valeu a pena e a conversa terminou ao som da música “Biografia de um crioulo” interpretada pelo Ildo Lobo.

Eumos Cruzados, 12 de julho de 2012. 

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