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Adora os Açores, mas sonha um dia “voltar para casa”

Adora os Açores, mas sonha um dia “voltar para casa”

Filha de pais portugueses, Cheila da luz nasceu em Moçambique, em 1980, na província de Tete. Hoje sonha com o regresso, pelo menos, para ir matar as saudades do pôr-do-sol.

O seu pai trabalhou durante muitos anos na Marinha Portuguesa e “correu meio mundo”, confidenciou-nos Cheila da Luz com uma energia contagiante. Depois fixou-se em Moçambique, onde trabalhou como camionista. E com a sua esposa, também ela portuguesa, viveu neste país africano mais de 30 anos. Inicialmente Maputo, a capital do país, foi a zona de residência deste casal, onde tiveram o seu primeiro filho. Porém, mais tarde, mudaram-se para Cabora Bassa e lá nasceu Cheila da Luz. Em 2000 decidiram regressar à terra natal.

Cabora Bassa, onde foi construída uma das maiores barragens de África, era uma terra constituída por uma forte comunidade portuguesa, mas também por moçambicanos e indianos. Para Cheila viver nesta terra “era excelente”. Relembra que na altura não existia televisão e, por isso, havia muito convívio. “Aos fins-de-semana faziam-se jantaradas em casa de amigos, brincadeiras nas ruas, quer com os portugueses, quer com os moçambicanos”. As tradições portuguesas, bem como, as das outras comunidades que lá viviam eram mantidas e, nem por isso, deixava de haver convivência. “A troca cultural era e foi muito boa”, disse.

Em 1995, com apenas 15 anos, saí sozinha do seu país rumo a Portugal, para o Ribatejo, com intuito de prosseguir os estudos. Quatro anos mais tarde, a Biologia Marinha fê-la eleger a Universidade dos Açores. No entanto, ao apaixonar-se pela área da botânica, acabou por escolher o curso em Biologia Ambiental.

Sobre a sua chegada a Portugal diz que “é diferente”. As mentalidades e o clima são outras. E a adaptação não foi difícil. Nos Açores, cruzou-se com várias pessoas dos PALOP que tal como ela saíram dos seus países para continuar os estudos. “Havia estudantes de Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Angola e como estamos muito próximos a nível cultural, refugiamo-nos inicialmente naquele grupo”, contou. E por surpresa sua, na residência universitária feminina partilhava o quarto com uma cabo-verdiana e outra santomense. “Era o nosso quarto. Ficamos muito amigas, andávamos sempre juntas e depois quando saímos íamos ter com o grupo dos PALOP”.

Contam-se agora 13 anos desde que chegou aos Açores e da academia açoriana guarda boas memórias, as quais partilhou connosco. Pertenceu à Associação Académica durante 2 anos, foi veterana durante 8 anos e de 2002 a 2005 fez parte do Gabinete de Cooperação com África, que existia na universidade. Para Cheila da Luz, “estes foram 3 anos muito bons”. Conheceu pessoas de diversos países do continente africano, bem como, novas culturas. Deste gabinete surgiu as Semanas de África. “Um marco para a sociedade açoriana, que passou a ver a cultura e gastronomia africana de outra forma”, acrescentou.

Há 17 anos saiu de Moçambique e nunca mais voltou. Agora sonha com o regresso. Do país diz que sente falta “das pessoas e da sua alegria, dos amigos, do sol, daquele calor e do cheiro a terra molhada”. É difícil de descrever Moçambique, mas para Cheila “não há pôr-do-sol e mar mais lindo”.

Apesar de já ter um filho açoriano, casa, trabalho e muitos amigos nos Açores, não considera o arquipélago como aquela casa. E, por isso, tem como planos para o futuro dar a conhecer ao seu filho Moçambique. “E um dia mais tarde regressar a casa. Aproveitando a minha área de estudo, quero poder contribuir para o desenvolvimento do meu país”, acrescentou.

Para terminarmos pedimos que fizesse um balanço do seu percurso migratório. “O balanço que faço é positivo. Mudei um pouco a mentalidade, porque a sociedade abriga-nos a isso. Mas não mudei a cem por cento, ainda há muita coisa que ficou, porque o que é nosso por natureza fica.”

Rumos Cruzados, 8 de Março de 2012. 

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