AIPA

“Sinto-me em casa aqui”

“Sinto-me em casa aqui”

B.I

Nome: Ricardo Jorge Ferraz

Idade: 35 anos

Nasceu: Brasil

Formação Académica: Licenciatura em Medicina Dentária, especialização em Cirurgia Maxilo - Facial e Estomatologia

Lema de vida: “Nós só estamos cá de passagem, não vale a pena estarmos a perder tempo com coisas que não valem a pena”

Passatempo favorito: Dar banho ao filho

Ricardo Ferraz nasceu em São Paulo no seio de uma família portuguesa. Terminados os estudos foi viver para o Porto e está nos Açores há dois anos. A mulher e os filhos são açorianos. Contam-se já 6 anos e meio desde que saiu do Brasil.

O que lhe fez vir para os Açores? Na verdade toda a minha família é portuguesa. Por altura do 25 de Abril, os meus pais emigraram para o Brasil e a minha mãe estava grávida. Assim, acabei por nascer em São Paulo, em 1976, e os meus pais resolveram ficar por lá. Cresci e terminados os meus estudos resolvi ir viver para o continente. Lá conheci a minha mulher que é açoriana e há 2 anos viemos para os Açores.

Antes de vir para cá tinha noção do que eram os Açores? Não conhecia, apenas ouvia falar e o interessante é que os continentais têm uma ideia muito equivocada dos Açores. Pensam que o arquipélago é um sítio inóspito, selvagem, acham que as estradas são ainda em terra batida e que as pessoas andam em carros de bois. Eu não tinha exactamente esta ideia e quando cheguei cá tive uma surpresa enorme porque São Miguel tem uma qualidade de vida superior à do continente.

Teve dificuldades de adaptação? Não tive nenhumas dificuldades de adaptação. Já me disseram que dentro dos açorianos o povo micaelense é o mais introspectivo, mas eu acho que são pessoas muito simpáticas, amistosas e penso que com facilidade fazem-se aqui grandes amizades. Sempre fui muito bem recebido e neste momento tenho mais amigos aqui do que no Continente.

É especializado em Cirurgia Maxilo-Facial. Como é que acha que está a área nos Açores? Eu tenho tido bons resultados, o mercado é bom e tem um potencial interessante, mas acho que não tem sido bem trabalhado.

Para além da sua profissão que outras actividades faz na ilha? Eu gosto muito de desporto, por isso, corro e ando de bicicleta. Agora comecei a ter interesse por motos e descobri que em Ponta Delgada existe um clube de motard. Participar nesta actividade será muito bom para mim pois irei fazer novas amizades. Conhecer pessoas diferentes é importante para a integração, ao contrário, de se ter um reduto de conterrâneos. Na verdade o importante é mesmo a miscigenação entre culturas. Por estas razões, Brasil tem crescido muito, pois é um país multicultural, onde os brasileiros quase não existem sozinhos.

Como está a sua relação com o Brasil? Está bem. Eu há pouco tempo estava a fazer a tese de mestrado e ia com regularidade ao meu país. Gosto de ir lá, mas não tenciono regressar sem ser para visitar a minha terra e rever os amigos, porque toda a minha família já regressou a Portugal. Por outro lado, gosto mais do estilo de vida dos Açores, é mais tranquilo. Claro que sinto saudades já que fui educado lá. Eu costumava a brincar com os meus amigos com o facto de toda a minha família ser portuguesa porque é uma coisa muito rara no Brasil, por ser um país multicultural, em que o mais comum é ter-se por exemplo o pai de descendência italiana e a mãe portuguesa. Nós costumamos dizer que no Brasil não existem brasileiros puros.

E sente-se mais brasileiro ou português? Eu sempre me identifiquei muito com Portugal e uma coisa que se nota com a comunidade brasileira quando emigra para cá são problemas de adaptação porque apesar de serem países com a mesma língua, têm culturas muito diferentes. Eu não tive problemas neste sentido porque, apesar de viver no Brasil, na minha casa prevaleciam os hábitos portugueses e nas férias vínhamos quase sempre a Portugal. Portanto, fui criado com a cultura portuguesa, mas não escolho entre um ou outro país, gosto dos dois países e identifico-me com eles. Em relação aos Açores já se sente em casa? Sim sem dúvida porque apesar de ter estado inicialmente mais tempo a viver no Porto do que em São Miguel, gosto mais de estar cá. Cada vez que tenho de ir ao continente conto as horas para voltar para esta ilha. Por outro lado, eu tenho um filho açoriano e identifico-me muito com São Miguel. Posso mesmo dizer que aqui me sinto em casa.

Que balanço faz deste percurso migratório? Eu acho que tem sido um bom percurso, sinto-me uma pessoa realizada e feliz. Acredito muito nas potencialidades dos fluxos migratórios e estou convencido que Portugal só tem a ganhar com a imigração.

Rumos Cruzados, 8 de setembro de 2011.

Retroceder

Associe-se a nós AIPA

Agenda

Subscreva a nossa newsletter