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"A minha casa é onde ganho o meu pão"

Nome: Waheed Zaman Raja

Idade: 33 anos

Nacionalidade: Paquistanês

Waheed Raja saiu do Paquistão há 11anos com o desejo de querer conhecer o mundo. Passou por quase todos os países da Europa, conheceu os Açores e apaixonou-se pela natureza e as suas gentes.

Por que veio para os Açores? A primeira vez que eu vim foi para passar férias com o meu irmão que já estava a viver na ilha. Fiquei cá dois meses, depois voltei para mais um país da Europa. Não consegui ficar lá mais tempo. Em 2004 regressei a São Miguel e fiquei por cá até agora.

Quando chegou qual foi a sua primeira reacção? Lembro-me de o meu irmão ir-me buscar ao Aeroporto, trouxe-me a casa e depois levou-me a conhecer a cidade. Passeamos pela avenida, fomos até São Gonçalo, depois regressamos à avenida e eu disse-lhe: “vamos agora até à cidade” e o meu irmão respondeu: “a cidade já acabou!”. No início estranhei o tamanho de Ponta Delgada.

E do que é que gostou mais da ilha? Eu gostei das pessoas, são muito amigas, facilmente fazem-se grandes amizades aqui. Para além disso, adorei a natureza. Já corri vários países e não encontrei natureza como a que temos aqui.

Teve dificuldades de adaptação? Eu não tive grandes dificuldades de adaptação. O primeiro obstáculo foi a língua, mas com tempo aprendi. No início quando vim viver para cá trabalhei na construção civil, durante quase um ano, em Rabo de Peixe, e foi lá que fui aprendendo o português.

Sentiu-se bem acolhido pelos açorianos? Os açorianos sempre acolheram muito bem a mim e à minha família. No dia em que abri um café no Nordeste, muitas pessoas entravam, com curiosidade, só para ver como eram os paquistaneses. Hoje tenho grandes amizades nesta freguesia e não só.

Como é que surgiu a ideia para a criação do seu negócio? Eu sempre quis ter o meu próprio negócio e a história do surgimento do meu primeiro comércio na ilha teve uma certa piada. Quando fomos a Nordeste pela primeira vez, deparamo-nos com os bares quase todos fechados, então decidimos bater à porta de um dos estabelecimentos, abriram-nos a porta e a primeira pergunta que coloquei ao senhor do café, foi se ele sabia de algum bar ou café para venda, renda ou trespasse e a resposta dele foi: “você pode ficar com este!”. Passados 5 minutos já tínhamos o negócio feito. O negócio correu bem e um ano depois criamos o Bella Itália. Há pouco tempo alteramos a ementa e o nome do restaurante. A pedido dos clientes começamos a servir comidas paquistanesas e indianas e o restaurante passou a ter o nome de Bella Itália Maha Raja.

 Porque é que começou com a comida italiana e não com a Paquistanesa? Para falar a verdade tivemos um certo receio de que as pessoas não gostassem da nossa gastronomia, pois são comidas mais picantes ou com mais ingredientes. Como eu já tinha mais experiência com a gastronomia italiana e também é mais conhecida aqui na Europa decidi começar por esta.

Como está a sua relação com o Paquistão? A minha relação com o meu país está bem. Todos os anos uma pessoa da minha família, que está aqui a viver, vai lá de férias. No ano passado foi a minha vez, este ano irá o meu irmão. Para além disso, quase todos os dias comunicamos com toda agente através da internet. Já está há uns anos fora do seu país.

Como é que se sente quando vai visitar a sua terra? Eu cada vez que vou ao Paquistão sinto saudades de São Miguel porque é onde tenho as minhas coisas. No meu país sinto-me como que se fosse um visitante. Eu não penso em regressar ao Paquistão, a minha vida agora é aqui. A minha casa é aqui, onde ganho o meu pão.

Em termos pessoais como é que o Raja se sente, tendo em conta que a sua vida é nos Açores? Eu sempre serei Paquistanês e de açoriano tenho o modo de viver. Existem certas coisas que, apesar de estarmos longe do nosso país, nunca podemos abandonar. Por exemplo, no Paquistão a família vive sempre junta, aqui o jovem maior de idade já pode viver sozinho. Posso ficar mais de 20 ou 50 anos a viver nos Açores, mas nunca irei separar-me desta tradição. Hoje vivo aqui com a minha família e sempre hei-de viver, foi esta a educação que eu trouxe do Paquistão para os Açores.

Rumos Cruzados, 14 de Julho de 2011.

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