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Acir, em tupi-guarani, significa O QUE FAZ DOER

Acir, em tupi-guarani, significa O QUE FAZ DOER

BI.

Nome completo: Acir Fernandes Meirelles (Acir, em tupi-guarani, significa o que faz doer. Os meus pais, obviamente, não sabiam disso quando me baptizaram)

Idade: 43 anos (mas ninguém dá-me mais do que 42)

Formação Académica: Licenciado em História, Mestre em Cultura e Literatura Portuguesas (é como a idade, ninguém nota)

Lema de vida: Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância, ou, na versão popular, presunção e água benta, cada um toma a que quer.

Passatempo preferido: Ler (principalmente nas entrelinhas)

Cidade Preferida: Lisboa (eu ia escrever Angra do Heroísmo, mas não quero perder os amigos micaelenses) 

 Conta-nos um pouco sobre o seu percurso migratório? Em 1986 apaixonei-me pela minha actual mulher, que estudava Física, no Rio de Janeiro. Quando ela voltou para os Açores, em 1991, depois de concluída a sua licenciatura, impossível não acompanhá-la. Quando se emigra ficamos sempre entre dois mundos e carregamos sempre a nossa cultura. O que recorda dos seus primeiros tempos aqui nos Açores? Uma burocracia imensa (ainda havia o papel azul timbrado) que, felizmente, passou à história. Tudo com muitos selos, muitos carimbos, muitas leis contraditórias. Casamos no Brasil e em Portugal era preciso desenvolver todo um processo de reconhecimento do matrimónio. Por conta disso, nos nossos documentos desse período, estamos registados como solteiros. As diligências eram tão complicadas que eu sugeri tornarmos a casar, pois seria mais simples. Explicaram que não era possível, pois já éramos casados, mas com documentos de solteiro. Uma situação “kafkiana” que, vista a essa distância, até é engraçada. E o seu próprio processo de integração, como é que foi? Foi simples, principalmente se comparado com situações dramáticas que todos nós conhecemos. Eu já tinha um curso superior, o apoio de uma família açoriana, estava legal no país. Nem sequer ouso falar em dificuldades, prefiro o termo contratempos. Profissionalmente, o que é faz? Sou técnico superior da Direcção Regional do Trabalho, Qualificação Profissional e Defesa do Consumidor, onde coordeno a Rede Valorizar. É um serviço do Governo Regional que eu aconselho vivamente aos imigrantes. Podem procurar informações em www.redevalorizar.azores.gov.pt. Qual é sua opinião sobre a forma como a sociedade açoriana integra os imigrantes? Costumo dizer que nos Açores não podemos falar mal de ninguém, pois ou é primo ou vai ser. Brincadeira à parte, o facto de sermos, comparativamente ao resto do país, uma sociedade mais coesa, que mantém ainda certas estruturas de apoio, acaba por beneficiar o cidadão estrangeiro. Muito mais fácil do que lidar com estruturas grandes e impessoais. Mais fácil, obviamente, não significa isento de dificuldades. Todos nós exercemos e vivenciamos, quotidianamente, um rol de preconceitos. Mas se descobrirem algum país ou sociedade que não os tem avisem-me, por favor, pois gostaria de conhecer. Projectos futuros. Ficar por cá ou regressar ao Brasil? Quando adquiri a cidadania portuguesa optei por abdicar da brasileira. O meu projecto nos Açores, salvo uma situação realmente de força maior, é para sempre. Mantêm uma ligação permanente com o Brasil? Tirando a família e alguns amigos, já não tenho ligações, pelo menos formais, com o Brasil. Mas da terra onde passamos a infância e a juventude ninguém se livra, faz parte do nosso ADN. Coloque essa mesma questão a um português nascido em África, vai ver que a resposta não é muito diferente. Como brasileiro, quais são as suas expectativas em relação ao desenvolvimento do Brasil? O Brasil é hoje um país melhor, em alguns campos mesmo muito melhor, do que aquele que eu deixei em 1991. Um país que elege democraticamente os seus governantes, onde todos os indicadores sociais têm melhorado, onde a economia cresce, que prova, na prática, que existem vias alternativas, esse país deixa qualquer cidadão, independentemente da sua nacionalidade, orgulhoso.

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