AIPA

António Neves, um imigrante, essencialmente, ilhéu. Conheça esse engenheiro que reside nos Açores desde 2001. É natural de Cabo Verde

António Neves, um imigrante, essencialmente, ilhéu. Conheça esse engenheiro que reside nos Açores desde 2001. É natural de Cabo Verde

Quando é que chegou aos Açores?

Cheguei aos Açores, para trabalhar e viver, em finais do verão de 2001, depois de ter feito férias de curtas estadias na ilha Terceira em 1999 e 2000. Só depois de vir para cá viver é que me dei conta da minha “chegada” aos Açores, muitos anos antes, quando li o Vitorino Nemésio, assiduamente, e tive entre os meus livros de cabeceira o «Mau tempo no Canal».

E, em relação ao percurso migratório?

Parti de Cabo Verde e da minha ilha, São Vicente, Mindelo, em meados da década de oitenta a caminho de Coimbra. Fiz a licenciatura em Eng.ª Electrotécnica pela Universidade de Coimbra e, nessa cidade, onde vivi década e meia, e iniciei a vida profissional, também constituí família e fui pai duas vezes, dum rapaz e duma menina. De certa forma, se saí da casa dos meus pais com a personalidade moldada pelo rigor e pela auto-disciplina, com a alma impregnada de humildade, mas, essencialmente, com a nobreza de um espírito livre, nesta ilha das Beiras que é Coimbra, também minha, encontrei uma escola de vida. E após vinte e quatro anos de ter iniciado esta viagem e da minha vocação ilhéu me ter devolvido à Macaronésia e às ilhas – neste caso Açorianas – o pouco que posso dizer ou partilhar advém duma caminhada que elege como cimeira a vida e a sua construção ontológica: todos os elementos concretos ou abstractos, todo o esforço levado a cabo na eleição de tais elementos e na realização dessa obra, só será válida pela qualidade da nossa intenção! A imigração acarreta muitas vezes dificuldades.

No teu caso, quais foram as principais dificuldades?

É certo que sair do seio maternal e do aconchego do “lar”, abandonar a palma das nossas mãos e tudo que nos é endógeno, no sentido mais lato, para se lançar à aventura da distância e do (des)conhecido, encerra por si uma dificuldade inerente. Poderemos encontrar designações várias para a classificar: uma espécie de gramática da identidade que se vê confrontada, consciente ou inconscientemente, com a capacidade de adaptação e/ou de acolhimento; com a abordagem do novo e a comunhão das diferenças, mesmo tendo em conta que Cabo Verde e Portugal são culturalmente afins. Para além dessa dificuldade inerente de que vos falo, de entre outras, a maior delas será sempre a do crescimento como homem e a chegada à idade adulta longe do amparo de penates, essa busca da maturidade que não perdoa. Porque não nos perdoamos. No íntimo, e na mor dos ensejos, a agudeza que impomos a cada passo poderá nos levar ao estado em que o mundo se assume como nosso lar. Um ilhéu saberá o que isto significa, e a açorianidade, em particular, à semelhança da cabo-verdianidade, por ter um sentido para a palavra diáspora para além do meramente estético.

Profissionalmente, o que é que faz?

O meu “ganha-pão”, parte da faina de todos os dias, é a Engenharia e a Gestão da Manutenção. É nesta área a minha colaboração e o contributo profissional que presto ao Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo.

Como é que um ilhéu se sente nos Açores?

O lugar das ilhas, ter o mar por horizonte, é o meu ambiente, algo que me é intrinsecamente familiar. É reconfortante pensar que aqui também se vive o mito da Atlântida. Como vê o modo como a sociedade açoriana acolhe os imigrantes? A sociedade açoriana conhece empiricamente o significado da emigração, e desenvolveu, naturalmente, o dom do acolhimento. Se as Instituições Açorianas deveriam potenciar essa aptidão, é a questão que poderá ser pertinente colocar. Pois no contexto actual do mundo “grosseiramente” globalizado (ou alterglobalizado) isto será uma mais-valia, independentemente de considerarmos válidos os conceitos do a-pós-moderno da altermodernidade. E, em relação ao futuro? Regressei de Cabo Verde há menos de um mês, passei com a família a época natalícia em S.Vicente, e privei momentos, sem pretensão alguma, memoráveis! Acabei por trazer na bagagem as «Memórias de um Nómada» de Paul Bowles, que um amigo me emprestou – será uma bela leitura, e poderás devolver-me o livro na Primavera quando eu viajar até o Alentejo – combinou comigo o Maestro. Assim iniciei a minha leitura esperando, como que em segredo, encontrar quiçá a sugestão para a resolução de algumas questões do teor desta que então respondo. Não sei se terei essa sorte ao reler as memórias de Bowles, mas para já ficou-me uma frase em que o autor é lapidar: “Não optei por viver permanentemente em Tânger; aconteceu.”Time will tell…

Sei da sua dimensão literária. Neste momento, quais são os projectos nesta área? Sucintamente, e sem ser aqui o local propício para o fazer… na verdade, no meu atelier, por entre quadros perenemente inacabados, telas pelo chão e sob os cavaletes, como se a dissonância dos sons, os espaços vazios e as imagens que a vida nos apresenta fossem depuradas espiritualmente pela pena e o gesto que a segura… o poeta, este artesão da alma, vasculha a benquerença e a harmonia, ora seguindo a estrela polar ou a musa ora vislumbrando a rosa dos ventos ou o canto das sereias, traçando a sua rota, bebendo de porto em porto a sua própria sede. Eis a vocação por inteiro, que as parcelas não bastam, e a desconstrução e os utensílios que mo permitem transfiguram-se na ínfima modelação da matéria humana que nos pertence. Após dois livros de poesia publicados, o último há cerca de 10 anos, com vários projectos na gaveta e outros sobre a mesa, por opção impus ao meu processo criativo uma reflexão profunda e uma procura, que não necessariamente uma busca da excelência, que se têm revelado fundamentais. Ando à cata da solitude, e tendo os Açores como cenário ou pano de fundo, salvaguardo-me, criteriosamente, da dramaturgia do ego, não segrego o corpo (físico) do metafísico, e numa atitude não deliberada mas necessariamente iconoclasta, vou concebendo uma poética pautando pela introspecção e por tudo aquilo que esmaga ou alicerça as minhas concepções estéticas, a minha visão da arte, da vida. Certamente não tenho a pretensão de o decifrar, mas é óbvio que o mundo, na sua beleza ou fealdade, em toda a (im)perfeição e caoticidade, é a minha Babel incontornável!

Quer deixar alguma mensagem?

É a mensagem que vos deixo! Para além dum singelo agradecimento…

Retroceder

Associe-se a nós AIPA

Agenda

Subscreva a nossa newsletter