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200 milhões em movimento

China é o país mais populoso da terra e aquele que mais emigrantes exporta para o mundo. Números redondos, existem 35 milhões de chineses emigrados em 151 países que enviam anualmente para casa poupanças rondando os €16 mil milhões. Apesar de serem muitos — o total de emigrantes do velho Império do Meio espalhados pela Terra equivale ao número de habitantes da Polónia—só representam 2,7% da população da sua terra natal. Partem na esperança de encontrar melhores condições de vida numa das muitas pátrias de acolhimento, de poder juntar algum dinheiro para ajudar a família (cada emigrante chinês envia para casa €456/ano), e com o desejo de se instalarem no país receptor por um longo período de tempo. Um estudo recente da Academia Chinesa de Ciências Sociais revela que os EUA, a Austrália e a Europa são os destinos preferidos, e que os trabalhadores chineses se empregam preferencialmente na agricultura e silvicultura ou, em alternativa, dedicam-se ao pequeno comércio familiar ou à importação/exportação de produtos de e para o país de origem. A força da tradição cultural chinesa e o culto pelos antepassados fazem-se sentir no fim da vida: "Os chineses só pensam regressar à China quando atingem uma idade elevada e sentem que a família e os amigos já não precisam deles. Nessa altura, querem voltar para morrer", diz Carmen Amado Mendes, professora de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Regra geral, os emigrantes chineses não formam uma comunidade qualificada, ao contrário do que está a acontecer com largos sectores de emigrantes da Índia — o segundo país mais populoso da terra e também o segundo em número de emigrantes exportados (20 milhões). Paraísos da emigração qualificada "Neste momento, o discurso da União Europeia vai no sentido de procurar captar imigrantes qualificados", diz Jorge Malheiros, investigador do Centro de Estudos Geográficos: "E a Índia não tem mercado (interno) de trabalho para todos os quadros que produz. Há universidades indianas que produzem especialistas" para o exterior, e formam jovens que encaram a hipótese de ter um emprego no estrangeiro como "uma vantagem social — em termos financeiros e de prestígio", explica Jorge Malheiros. E acrescenta que a Índia também tem a sua quota-parte de vantagens nesta exportação de quadros, porque, normalmente, eles acabam por fomentar e "participar em projectos de desenvolvimento" no seu país natal. O Canadá, os EUA e a Austrália são os países que acolhem mais estrangeiros qualificados. No caso australiano, já representam mais de metade do contingente total de imigrantes no país. As Filipinas são o terceiro maior exportador de emigrantes (sete milhões). Segundo Jorge Malheiros, "as enfermeiras filipinas têm uma grande procura", na Austrália, EUA e nalguns países europeus. A par do pessoal feminino de enfermagem, assiste-se igualmente a uma crescente procura de empregadas domésticas e prestadoras de cuidados de saúde a idosos, de nacionalidade filipina, na Europa e nos EUA. Este exemplo das filipinas é um dos que contribuem para a consolidação de uma crescente feminização do universo de migrantes. Segundo a Organização Internacional de Migrações (OIM), as mulheres já representam quase metade do total de migrantes, embora continuem a ser vistas como um contingente de migrantes temporários e, muitas vezes, mais mal pago e desprotegido. Crise, velhos e xenofobia Jorge Malheiros recorda que, em termos absolutos, no final do século XIX, "assistimos a movimentos migratórios maiores da Europa para a(s) América(s)" (do que os actuais), em grande parte ditados pelas difíceis condições de vida de grandes regiões do Velho Continente, mas também pela esperança então depositada no Novo Mundo. Embora os factores económicos sejam determinantes para quem toma a decisão de ir viver fora do país natal, não são os únicos. As migrações temporárias — mais de três meses e menos de um ano — estão a "crescer, ditadas, em parte, por questões de consumo", diz Malheiros. É o caso da crescente migração de reformados de várias áreas do globo, que decidem instalar-se em países que lhes oferecem melhor clima, melhores serviços de apoio e assistência, e um custo de vida mais barato. "Como os americanos que se instalam no México, e os idosos ingleses e do norte da Europa que vêm viver para os países do sul — Portugal, Espanha, Grécia", explica Jorge Malheiros. Se o caso dos velhos que mudam de país porque sabem de antemão que vão encontrar uma vida melhor é positivo, não podemos esquecer o efeito negativo da crise sobre a imigração não qualificada. Os exemplos são transversais e, só na Europa—onde se estima que existam entre quatro e sete milhões de trabalhadores indocumentados —, vão dos operários britânicos que há três semanas se manifestaram contra a contratação de portugueses e italianos para a refinaria de Lindsey, ao caso da Espanha que está a dar incentivos económicos aos imigrantes que desejem regressar aos seus países de origem. Sem esquecer os baixos salários que, em quase todos os países, são pagos aos trabalhadores sem papéis. Muito mais dramática é a situação dos 17,1 milhões de migrantes africanos que, segundo a OIM, circulam maioritariamente entre os países do continente à procura de trabalho e melhores condições de vida. Basta recordar os violentos ataques xenófobos — que incluíram danos físicos e destruição dos poucos haveres — de que foram alvo os moçambicanos e zimbabweanos imigrados na África do Sul, em Abril e Maio de 2008. Manuela Goucha Soares, Jornal Expresso

Publicado: Segunda, 23 Fevereiro, 2009

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