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Um dia histórico e apaixonante

Por: Paulo Mendes A eleição de Barack Obama tem muitos significados e um deles é que abre, definitivamente, uma nova página da História dos Estados Unidos e do Mundo. Esta eleição contrariou todas as probabilidades sociais, de um miúdo filho de um preto do Quénia e de uma branca dos Estados Unidos, conseguir chegar à Presidência da nação mais poderosa do mundo. Só mesmo nos EUA, cuja liderança mundial não se mede somente pelo pioneirismo e capacidade económica, mas, também, pela inovação e mudança social, como é o caso desta eleição. Na Europa, tenho as minhas dúvidas que isso pudesse acontecer, pelo menos, nos tempos mais próximos. Será que França, por exemplo, elegeria para Presidente, um descendente Marroquino ou a Alemanha um cidadão com raízes turcas? Será que Portugal elegeria um Presidente preto? Uma rápida visão pela Assembleia da República, e ficaríamos com pistas interessantes relativas a esta questão. Aliás, BO no discurso de ontem, não deixou passar a questão do racismo e a capacidade de mudança nos EUA quando disse que: "Se há pessoas que ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta. O mérito do Obama tem ainda, na minha opinião, uma outra base de explicação; Durante o percurso que o levou à Casa Branca não proferiu o discurso de vitimização, estratégia que era seguida por muitos potenciais candidatos negros. Aliás, na altura em que a candidatura do Obama começou a ganhar alguma consistência, era considerado pela comunidade negra dos Estados Unidos como demasiado branco e, simultaneamente, pela comunidade branca, como não suficientemente branco. A tentação do discurso de vitimização, com riscos reais de fazer o efeito de ricochete de discriminação, é muito grande, sendo que esta apaixonante vitória veio confirmar, no entanto, que não é por aí que as mudanças são concretizadas. Não é com um discurso de choramingas que se faz a mudança. Obama conseguiu fazer uma campanha em que o tema do branco/preto não foi determinante. Aliás, na convenção nacional do Partido Democrata, em 2004, declarou em discurso “Não há um EUA branco e outro negro, e sim os Estados Unidos da América”. Na altura, muitos de nós, duvidamos não da capacidade do Obama chegar a vencer esta corrida, mas da capacidade do povo americano em ultrapassar a barreira do preconceito. A resposta foi dada, com uma corrida sem precedentes na História do Estados Unidos nos últimos cem anos e uma vitória de que não deixa ninguém indiferente. Uma outra leitura que poderá nos servir para a realidade nacional e regional é a apatia das pessoas em relação à participação política. Esta vitória tem essa dimensão, ou seja, quando as pessoas se revêem na mensagem a participação acontece. Agora é hora de trabalhar e concretizar a tal mudança. Ninguém está à espera que Barack Obama mude o mundo. Mas não podemos esquecer que quem faz as mudanças não são extraterrestres, são homens, somos nós. Esta é a opinião do Paulo Mendes e não reflecte necessariamente a opinião institucional da associação.

Publicado: Tera, 04 Novembro, 2008

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