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Interculturalidade: Presidente da Gulbenkian adverte para efeitos

Lisboa, 27 Out (Lusa) - O presidente da Fundação Calouste Gulbenkian disse hoje que o aumento do desemprego causado pela crise financeira vai obrigar "muitos dos imigrantes" que estão em Portugal a regressarem aos países de origem. "Esta crise [financeira] vai traduzir-se em mais limitações no acesso dos imigrantes. Com o desemprego, muitos dos imigrantes vão ser obrigados a regressar aos países de origem", referiu à agência Lusa Emílio Rui Vilar, após a sessão de abertura da conferência "Podemos viver sem o outro? As possibilidades e os limites da interculturalidade". De acordo com o presidente da Fundação, a crise "vai ter muitas consequências na área social e cultural", bem como nas ajudas humanitárias, devido à limitação dos meios facultados às Organizações Não-Governamentais (ONG). Na opinião de Emílio Rui Vilar, o contexto financeiro actual veio tornar mais oportuna a realização da conferência, que decorre até terça-feira. "É preciso ver os efeitos desta crise em toda esta questão da mobilidade social e dos apoios aos países e às sociedades mais desfavorecidas", assinalou o presidente da Fundação, que organiza a conferência. Apesar de adivinhar dificuldades nos apoios aos imigrantes, Emílio Rui Vilar garantiu que a Fundação vai manter os seus programas dirigidos aos imigrantes. Adiantou ainda que a Fundação vai retomar o programa de reconhecimento das habilitações de mais 150 médicos imigrantes, à semelhança do que fez no primeiro programa destinado também a enfermeiros. Questionado sobre o estado da interculturalidade em Portugal, o coordenador do programa Gulbenkian "Distância e Proximidade", António Pinto Ribeiro, disse ser bom "comparando com outras situações". "Estamos bastante bem comparando com outras situações. Temos a sorte de não seremos um país que está muito atravessado por grandes conflitos culturais, étnicos e raciais, o que é muito positivo", observou. António Pinto Ribeiro salientou também "uma coisa extraordinária" que foi Portugal ter feito "as pazes com os países das ex-colónias". Lamentou, contudo, que existam em Portugal questões que surgem como sendo de natureza racial mas que são de natureza étnica ou decorrentes do conflito entre ricos e pobres. Quanto ao tema da conferência "As possibilidades e os limites da interculturalidade", António Pinto Ribeiro considerou haver imensas possibilidades e também bastantes limites. "Há imensas possibilidades para vivermos todos juntos. Mas há bastantes limites. Em todos os casos é bom que assim seja. Por um lado, porque de facto há questões de natureza cultural, de educação e de perspectivas de vida que são muito diferentes. Ninguém pode abdicar completamente do seu universo particular ou de grupo para aderir a outro universo que lhe seja completamente diferente. Seria o aniquilamento de um grupo em função de outro", referiu. Mas, advertiu, "também não pode haver uma distância intransponível, senão o caos e os conflitos instalam-se". À semelhança do orador desta manhã, o professor de antropologia Arjun Appadurai, da The New School, em Nova Iorque, António Pinto Ribeiro defendeu que se procure encontrar pontes de diálogo para uma melhor interculturalidade. "O que há a fazer - precisou - é tentar encontrar, dentro do que são as possibilidades do diálogo, das pontes, situações concretas, particulares e sobretudo situações de épocas. A ideia de que vamos resolver tudo para o resto do mundo e da história é um erro crasso". Também Appadurai defendeu soluções que tenham em conta a conjuntura, afirmando que é necessário estudar a forma como os imigrantes se esforçam para sobreviver quotidianamente "porque é aí que o diálogo acontece". As primeiras pontes, segundo o antropólogo, têm de ser alcançadas logo que os imigrantes comunicam com a comunidade que os acolhe, nomeadamente com os professores dos filhos, médicos ou polícias.

Publicado: Tera, 28 Outubro, 2008

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