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Açores: Imigrante em casa sem água e sem receber

“Nem na minha terra vi...”, comentava ontem Álvaro dos Santos, natural de São Tomé e Príncipe, a propósito da casa que lhe arranjaram para dormir, em plena cidade de Ponta Delgada. Uma casa que é, alegadamente, propriedade de advogados madeirenses e onde há muito que o fornecimento de água e electricidade foi interrompido. Até porque, ao que consta na rua, o edifício tinha como destino a demolição. Ainda assim, foi para aqui que este homem, pai de família e com 40 anos, conta que foi mandado por uma empresa de construção civil da Madeira quando o enviou para os Açores com “contrato feito” para trabalhar numa sub-empreitada. Isto, desde que pague mensalmente 150 euros ao “senhor que toma conta...”. Álvaro revela embaraço com a situação e só incentivado por Gelson Silva, um jovem nascido há 30 anos no interior do Brasil , denuncia as condições em que (sobre)vive. Ou a falta delas. Para este são-tomense que deixou a terra natal há mais de dez anos rumo à construção da Expo-98, “quando não faltava trabalho em Lisboa”, a estadia nos Açores não está a decorrer como esperava. Além da falta de condições, relata que não lhe pagaram e, neste momento, não tem nenhum trabalho em vista. “Pode ser aqui, ou para a Terceira, Graciosa ou para um lado qualquer!”, diz. “Sem trabalho não há dinheiro e como é que a gente vai pagar a nossa despesa”, interroga. E se não conseguir trabalho só quer arranjar o dinheiro para regressar à Madeira... Tanto ele como Gelson vivem dias difíceis por falta de recebimento. É que apesar do dito “contrato” da empresa madeirense, sub-empreiteira de uma obra nos Açores, diz que nunca viu o pagamento do trabalho feito. Daí, com a mulher e o filho a residirem na Madeira, decidiu tentar a sorte na “obra do Pavilhão Municipal da Povoação”. “Tive que mudar para outro lado e acontece igual... É assim”. O “assim” são cerca de 500 euros, diz. Foi quando começou a colocar mosaico no chão da obra, para a firma “Xeixa e Majela”, que conheceu Gelson. Este último conta que tem a haver por mais de dois meses de trabalho pelo menos 1800 euros. Ao contrário do companheiro, decidiu apresentar queixa esta segunda-feira à Inspecção Regional de Trabalho e uma denúncia junto da Polícia de Segurança Pública (PSP). Isto porque viu alguns recibos (com aspecto de conta de mercearia) onde supostamente estaria a sua assinatura. Deixou o Brasil há cerca de cinco anos e também ele passou pela Madeira, onde tem namorada. “Lá está muito difícil de trabalho, tem essa consequência também de sub-empreiteiro que às vezes não paga”, explica. António Costa, da António Costa, Lda, confirmou à nossa reportagem que conhece este caso e que - na sua qualidade se sub-empreiteiro -, contratara também ele a colocação do mosaico a uma outra firma: a dita “Xeixa e Majela”, propriedade de Geraldo, natural do Brasil. “Paguei tudo o que tinha que pagar até agora”, afiança. Também Geraldo, o ex-patrão dos dois homens que denunciaram a situação, não nega a dívida mas alega que não pode pagar porque um funcionário no qual tinha “confiança” recebeu os dois pagamentos da António Costa, Lda, tendo alegadamente desviado o dinheiro. Questionámos então se tinha intentado alguma acção judicial ou negociado a devolução da quantia, mas argumentou que preferia não procurar o antigo amigo “para não fazer uma desgraça”. Procurámos ouvir a versão do visado desta acusação mas nenhum dos contactos estava disponível. Quanto à responsabilidade para os trabalhadores (haverá mais dois na mesma situação), Geraldo só diz: “não recebi...” “A gente trabalha em obra e alguns colegas têm reclamado da mesma situação. Uns não têm Segurança Social paga, outros é isso e aquilo...”, comentou Gelson à despedida da conversa. Fonte: Açoriano Oriental

Publicado: Quinta, 10 Julho, 2008

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