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Jacqueline Torres, uma cabo-verdiana nos Açores

Jacqueline Torres, técnica de reintegração social, apresenta o seu primeiro livro sobre as “inconfidências” dos reclusos porque, conforme refere a autora, todos os indivíduos apresentam histórias e percursos de vida que não podem ser apagados ou esquecidos Como descreve o livro “Inconfidências de Adélia”? “Inconfidências de Adélia” é um aglomerado de histórias que decorrem no interior de um estabelecimento prisional. É um relato de partilhas, de um criar de laços...Porque, por detrás de cada crime cometido, há gente cujas histórias e percursos de vida não se podem apagar, nem tão-pouco esquecer. E entre peripécias e revoltas, a técnica Adélia ouve, escuta, mas também relata, ao longo do livro, os seus medos, dúvidas e inquietações. É um relato pessoal ou imaginário? O livro é uma história ficcionada, mas com uma base real, ou seja, ficcionei experiências pessoais, compilando-as em várias pequenas histórias. Que tipo de segredos revelam os reclusos? O factor tempo é, sem dúvida, um poderoso aliado no estabelecimento e no solidificar da relação de trabalho com este público-alvo, porque permite perceber até que ponto se deve, ou não, confiar no interlocutor. Regra geral e não considero isso segredos, pois o título do livro foi mesmo para espicaçar a curiosidade aos leitores, quem está privado de liberdade tem necessidade de falar de tudo... Da família, dos amigos, daquele mundo que ficou lá fora e do outro que se ergueu intra-muros, da revolta que assola quem está privado de liberdade. Note-se que, por vezes, a postura defensiva é tão grande, que nada é revelado ao técnico, porque não raras vezes, o próprio recluso não quer ser atendido. Como se consegue através da privação da liberdade recuperar uma pessoa para viver em sociedade? Todo o trabalho é feito tendo sempre presente que, um dia, quem está preso será restituído à liberdade. O imaginário colectivo é sempre derrotado, quando face a certos crimes cometidos e à censurabilidade dos factos, se pensa “esse devia ficar em prisão perpétua”. Felizmente, o nosso Código Penal tem subjacente outra filosofia. E esse trabalho é feito pelos vários profissionais que trabalham dentro dos estabelecimentos prisionais, onde os indivíduos podem adquirir algumas competências que facilitem a sua vida em liberdade, como a frequência de cursos profissionais, em articulação com outros profissionais e instituições que estão na comunidade, no sentido de se preparar a saída do indivíduo, que começa depois de cumprido determinado tempo da pena, a beneficiar das chamadas medidas de flexibilização da pena, como as saídas de curta duração, as saídas precárias ou a liberdade condicional, desde que esteja em condições para delas beneficiar. É evidente que quem trabalha nesta área tem que gostar daquilo que faz e, acima de qualquer outra questão, tem que ter sempre bem presente que há avanços e recuos, que muitas vezes as apostas não se ganham, apesar do investimento. Mas é muito gratificante apercebermo-nos que, pelo trabalho que se desenvolve, a sociedade começa a mostrar que também sabe interpretar o dito “um erro na vida, não é uma vida de erros”. Que tipos de problemas vivem os técnicos de reinserção social na Região? Tenho dificuldades em responder-lhe a esta questão, porquanto visto, nesta entrevista, a pele da autora de um livro. O que significa, necessariamente, que para esta resposta, teria que assumir uma postura institucional, devendo, para isso, estar prévia e devidamente autorizada a fazê-lo. Contudo, posso, a nível muito pessoal, colocar a questão, não em termos de problemas, na sua verdadeira essência, mas antes, no que apelidaria de dificuldades. Que se prendem com o conseguir manter o necessário distanciamento e não perder a lucidez, por forma a não deixar que as questões do dia-a-dia profissional interfiram negativamente no meu quotidiano pessoal. Tenho que conseguir distinguir entre a minha actuação como profissional, até determinado tempo do meu dia e a minha postura como pessoa, após a jornada de trabalho. E isso implica uma preparação a nível psicológico, que requer muito treino. || Uma vida dedicada à reintegração social Jacqueline Torres é natural da Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Chegou a Ponta Delgada em 1988, tendo-se licenciado em História em 1991. Frequentou, em 2004, o 1º Curso de Pós-graduação nos Açores “Protecção de Menores” – Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Actualmente, frequenta na Universidade dos Açores o curso de licenciatura em Psicologia. Pertence ao quadro de pessoal da Direcção-Geral de Reinserção Social, exercendo funções de técnica de reinserção social, adstrita à Delegação Regional dos Açores. O livro “Inconfidências de Adélia” foi publicado através das Edições Macaronésia, estando à venda em diversos pontos nos Açores, Portugal continental e Cabo Verde. Fonte: Açoriano Oriental

Publicado: Segunda, 23 Julho, 2007

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