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Responsabilidade social - "pseudo-arrastão" de Carcavelos,

Um ano depois do "pseudo-arrastão" de Carcavelos, Rui Marques, alto comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, fez um forte apelo à responsabilidade social dos jornalistas, deixando a recomendação de que se evite construir notícias com referência à nacionalidade, etnia e religião, sempre que isso não seja um eixo vital da notícia. Rui Marques falava, ontem, no seminário "Media e imigração", no qual se debateu a notícia do "arrastão". A seu ver, o sucedido a 10 de Junho de 2005 exige "um pedido de desculpas a uma comunidade que foi duramente atingida por uma notícia falsa". Uma "cristalização da mentira" foi como caracterizou o caso. Além do questionamento da metodologia adoptada na construção da notícia no próprio dia, foi criticada a forma como os media acompanharam, depois, o desmentido. O jornalista Joaquim Furtado disse que os órgãos de informação "não têm por hábito reconhecer o erro". Perspectiva validada por Luís Miguel Viana. O director da Agência Lusa reconhece que "há uma alergia generalizada pelo reconhecimento dos erros". Depois de se ter tornado oficial que não houve, afinal, o tal "arrastão", segundo o relatório da PSP de 19 de Julho, "as televisões e os jornais deixaram cair o assunto, sem reconhecer os erros", disse Joaquim Furtado. Fonte: DN Adriana Niemeyer, correspondente do jornal "Folha de São Paulo", apresentou um olhar mais distanciado. Estava na altura na Áustria e, tal como sucedeu nos restantes países europeus, a notícia do "arrastão" impressionou. Manteve-se, depois, atenta aos desmentidos e também pela Europa fora não se chegou a negar a informação original. "Os estrangeiros continuam a achar que os portugueses têm praias perigosas", concluiu. Os intervenientes não pouparam também o papel do Comando da PSP. "Quem é que deu a informação?" questionou, em jeito de acusação, Mário Robalo, jornalista do "Expresso". Estes agentes, considera, "têm de ter dentro consciência da acção formativa e formadora". Já a investigadora Isabel Férin chamou a atenção para a diversificação das fontes. "Deve-se procurar fontes alternativas na sociedade ". Notando que o desafio é maior na televisão, sustentou que "a imagem continua ali discriminatória e indiscreta". José Carlos Abrantes classificou de complexo o que sucedeu a certa altura, "até parecia que não se tinha passado nada". O provedor dos leitores do "Diário de Notícias" disse que os jornalistas não podem ficar dependentes das fontes e que a polícia tem de ter formação para lidar com os média. Aos bons jornalistas, disse, "cabe fazer com que os maus jornalistas se envergonhem". A tónica da responsabilidade do jornalista também dominou o discurso do presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). "O jornalista deve ter a noção de que o que diz tem um efeito de amplificação na sociedade", sustentou Azeredo Lopes. As primeiras notícias sobre o chamado "arrastão" davam conta de centenas de "indivíduos negros" que tinham invadido a praia de Carcavelos para roubar e furtar os banhistas. O seminário "Media e Imigração" foi a ocasião escolhida para entregar os prémios "Jornalismo pela Tolerância", que, nesta edição, não atribuiu galardão à categoria Televisão, por o júri ter considerado que nenhuma das peças candidatas reuniu mérito suficiente. O Grande Prémio foi ganho por João Paulo Baltazar, da TSF, com "Este é o meu bairro", reportagem que desenvolveu na Cova da Moura. O premiado fez questão em agradecer à estação onde trabalha pela aposta que vai fazendo na reportagem. O Prémio Rádio foi atribuído a Cristina Santos, também da TSF, e a categoria Imprensa a Ricardo Dias Felner, do "Público".

Publicado: Segunda, 12 Junho, 2006

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