AIPA

Crise faz brasileiro voltar, depois de 11 anos em Lisboa

Desde o ano de 2008, quando a crise financeira emergiu em Portugal, centenas de brasileiros voltaram à terra natal por falta de trabalho. O pernambucano, Andre Luis Barbosa Maciel Vieira, conta a sua história, entre decepção e esperança.

O atabaque soa diferente neste fim de setembro na sala de dança da Casa do Brasil, em Lisboa. Soa como um lamento, refletindo o estado de alma de André Luis, que vai dar a sua última aula de capoeira, antes de voltar para o Brasil. Ele viveu 11 anos na cidade. “Cheguei aqui em 2001, no momento perfeito, no começo do euro, começo de vida na Europa, tinha poucos imigrantes e, financeiramente, consegui ter uma boa qualidade de vida e acesso a muitas coisas”, diz André. O sonho durou até 2008, com o começo da crise e agora ele não suporta mais esse clima, as pessoas só falando nisso, é o “zum zum zum”, como ele diz, que o incomoda. Ele continuou viajando para o Brasil durante esses anos e acompanhou a sua evolução: “Hoje o Brasil está muito grande, muito melhor, mais seguro, potente, com mil oportunidades, principalmente na minha área, a cultural, pois dou aulas de dança e capoeira e sou coreógrafo. ”. Por que voltar para o Brasil? “Não adianta eu sair daqui e ir para Paris, Chicago ou Londres, vou estar levando os mesmos problemas”, reconhece André, revelando que conhece 93 pessoas que fizeram o caminho de volta. O programa de retorno voluntário lançado pelo país, com direito a passagem aérea e uma pequena ajuda de custo para recomeçar a vida, teve 87% de candidatos brasileiros.

Voltar, uma decisão dificil

“É doloroso partir porque gosto de Lisboa, gosto de Portugal, tenho bons amigos aqui, pessoas que me ajudaram no início. Eu me considero um cidadão do mundo, minha casa é em cima dos meu sapatos, mas eu apostei na vida aqui, eu escolhi, é um país que tem um clima bom, uma boa cultura, a mesma língua, foi uma escolha programada por mim. E Lisboa, especialmente, é um lugar pelo qual tenho carinho.Mas agora tenho que olhar para a frente. O Brasil está num ritmo de crescimento espontâneo, rápido e bonito. Aqui, acho que já foi, pelo menos, até os próximos seis anos. Quem sabe depois eu volte, quando a poeira baixar...”, desabafa. Os primeiros alunos começam a chegar, “boa noite, pode entrar”, ele diz, sem conseguir esconder a emoção. “Quer fazer a aula?”, ele pergunta, eu brinco e faço uns passos de capoeira que aprendi há muitos anos no Brasil, ele ri e eu me despeço desejando boa sorte a mais este brasileiro que teve o seu sonho desfeito pela crise. O atabaque soa alto, soa como um grito, eu penso que, felizmente, um novo sonho espera por André Luis, no Brasil.

RFI Português, 25 de setembro de 2012. 

Publicado: Tera, 25 Setembro, 2012

Retroceder

Associe-se a nós AIPA

Agenda

Subscreva a nossa newsletter