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No Mercado da Ribeira 30 pintores competiram por uma licença da Câmara

O Mercado da Ribeira ou o típico eléctrico amarelo, que ainda circula em algumas ruas de Lisboa, foram alguns dos temas dos trabalhos apresentados pelos cerca de 30 pintores que estavam nesta segunda-feira no Mercado da Ribeira a competir por uma das 20 licenças que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) está a atribuir para que possam pintar e vender os seus trabalhos nas ruas. Pintam Lisboa e a sua tradição como se sempre a tivessem conhecido mas são, na verdade, na sua grande maioria, imigrantes. Ucranianos, moldavos, croatas. São poucos os portugueses.

Cristina é croata e vive em Portugal há cerca de 7 anos. Nos últimos três teve uma licença da autarquia para pintar e vender no Largo da Sé mas agora quer mudar. “Gostava de ir para o Miradouro de Santa Luzia”, diz ao PÚBLICO, enquanto pinta numa pequena tela a entrada do Mercado da Ribeira, numa tentativa de receber um ponto extra – o concurso da CML definiu como tema do concurso os mercados de Lisboa e quem o seguisse garantia logo um ponto, numa escala de 0 a 20. “Gosto muito de pintar e gostei de ter trabalhado na Sé, é um local com muitos turistas mas agora gostava de experimentar outro”, conta a croata, sem desviar o olhar da sua tela numa corrida contra o tempo, afinal tem apenas duas horas para provar que merece o lugar.

Ao seu lado está Ludemila, uma ucraniana que já está habituada a estes concursos, ou não fosse esta a sua terceira participação. “Já pinto na rua há muito tempo”, diz com uma confiança de quem nem procurou o ponto extra. “Gosto de pintar o Alentejo, faz-me lembrar a minha terra”, conta Ludemila, que, como acabou antes do tempo, dá uma volta pelo mercado, para ver os trabalhos dos outros artistas. “Muitos, eu já os conheço, são muito bons.”

A passear pelo mercado, de trabalho em trabalho, estão também os membros do júri, constituído por Luisa Martinez (Chefe da Divisão de Mercados e Feiras/DMAU), Paulo Braga (Director do Departamento de Acção Cultural), Dina Teresa (DMAU/DMF) e Ana Rita Carvalho (DMAU/DMF). Vão espreitando e avisando para que ninguém se descuide com o tempo.

“Temos aqui trabalhos muito interessantes”, diz Paulo Braga, explicando que a ideia do concurso e das licenças é “ter um conjunto de artistas de rua a trabalhar em tempo real para as pessoas que passam”, facilitando depois a venda das obras. “Eles ficam com um espaço (de quatro metro quadrados) no qual podem vender os seus trabalhos à vontade, à semelhança do que já acontece em muitas cidades europeias”.

A escolha do tema foi, segundo Luisa Martinez, para fugir aos retratos típicos que já todos conhecemos. “Aproveitando que estamos aqui, pensamos que seria interessante”, diz a responsável, que à terceira edição do concurso faz um balanço positivo. “Temos sempre mais candidatos que lugares, logo isso é um sinal”, afirma. 

No entanto, António Carvalho, que também concorre pela terceira vez, confessa que esperava ver mais gente. “Somos sempre os mesmos”, conta o pintor, revelando que nem todas as licenças lhe interessam. “Em 20 licenças, só umas dez é que valem a pena, as outras nem eu nem ninguém quer”, diz, explicando que os lugares são atribuídos em função dos pontos e por isso os melhores ficam obviamente com aqueles que têm mais turistas. “Eu queria ficar nas Portas do Sol mas é difícil, estão aqui grandes pintores”, refere enquanto aponta para os outros artistas ao seu lado. “Sabe, é que a licença é um descanso. Nós pagamos mas pelo menos temos o nosso espaço, estamos descansados, não temos problemas com a polícia”, revela António, lamentando que não existam mais licenças. “Existem tantos locais bons...”

À procura de um bom lugar está também João, o mais novo dos concorrentes. Tem 19 anos e vê neste concurso uma oportunidade de poder fazer o que gosta no seu país, caso não seja escolhido já sabe o que tem a fazer: emigrar. “Isto está difícil para a arte, é difícil começar a fazer alguma coisa”, conta o jovem, que apresentou uma visão mais arrojada de Lisboa, num “combate entre a urbanização e a natureza”. 

“Este concurso é também para isto, para descobrir novos talentos. Algumas das pessoas que estão aqui já participaram antes e até tinham licenças, mas há também candidatos novos”, explica Luisa Martinez.

Os trabalhos serão agora avaliados de acordo com três critérios: "qualidade artística", "originalidade e criatividade da obra apresentada" e "domínio de técnica artística", e os vencedores são anunciados no dia 3 de Maio. 

Os artistas que vierem a ser escolhidos poderão desenvolver a sua actividade a partir de 2 de Junho, diariamente, entre as 8h e a meia-noite.

PÚBLICO, 23 de abril de 2012. 

Publicado: Tera, 24 Abril, 2012

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