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O Pai Natal de calções

Apesar de uma ou outra diferença, o Natal assume o mesmo significado entre povos e culturas: a família, os amigos, a solidariedade, a alegria constituem as bases da época natalícia. Na Ucrânia, a Mirina diz que a família reúne-se na véspera do Natal para um jantar com mais de dez pratos à mesa, sendo que nenhum é de carne. A imigrante ucraniana vai ter, seguramente, dez pratos (até mais se quiser), mas faltam-lhe os filhos. O marido da Mirina praticamente não fala o português, mas os seus olhos reflectem genuinamente a sua tristeza. O Natal para este casal perde toda a essência. 23-12-2005 por Paulo Mendes Em Moçambique, por causa do calor, o Natal é passado quase que literalmente na praia. Toda a família se desloca à praia e as águas quentes daquele país lusófono substituem a neve dos países do norte. Jesuíno é natural de Moçambique, trabalha na construção civil e está em Portugal há 5 anos e nos Açores há 2. Coincidência ou não, o telefone toca enquanto trocávamos umas palavras. Eram a mulher e os filhos. Apercebi-me de que o mais novo dos quatro filhos lhe perguntou se iriam à praia no Natal. Também me dei conta de que o Jesuíno não conseguiu responder ao filho. Já é o sexto Natal que este imigrante lusófono passa longe da família e, apesar de inúmeras tentativas, ainda não conseguiu trazer a família, por dificuldades burocráticas. Com uma voz seca e, simultaneamente possuída pela tristeza, disse-me: - Vim à procurar de uma vida melhor. Se calhar, também para oferecer umas prendas diferentes aos meus filhos, mas nessas alturas as coisas tornam-se complicadas. Vladimir, 29 anos, solteiro, brasileiro com sotaque nordestinho, fala do Natal de uma forma descontraída, mas sempre convicto da existência do Pai Natal, em trajes menores, por causa do calor brasileiro. O Vladimir fala da época natalícia com alguma descontracção. Se calhar é porque ainda não constituiu uma família. Não sei... Entrou em Portugal há um ano, via Espanha. Tem o curso de serviço de mesa, mas como está a espera que o processo extraordinário de regularização esteja concluído, recomeçou a trabalhar recentemente. Falta-lhe, por isso, dinheiro, para comprar uma lembrança para os pais, irmãos e sobrinhos... - a “ galera” fica mesmo à espera. Vim para a Europa...Frisa o nosso imigrantes brasileiro. Em S. Tomé e Príncipe a festa natalícia é marcada de forma singular, através da construção, no dia 24, de presépios na berma das estradas. “ Pacu Fia Glêsa” é nome deste género de presépio e é construído com recurso a matéria-prima local. Quem nos transporta para o Natal santomense é o Carlos. O Carlos tem 27 anos e está a frequentar o último ano de Gestão de Empresas na universidade açoriana. Geralmente, passa o Natal na casa de alguns colegas do curso. Julgo que seria desnecessário partilhar esses dramas – pequenos, grandes, dependendo da perspectiva, com o leitor. São com certeza poucos os açorianos que ainda não sentiram essa dor. A dor de passar o Natal longe da família. Mas também porque o Natal é feito de esperança, vamos acreditar. Acreditar que no próximo Natal a ucraniana Mirina e o esposo possam ir até a Ribeira Grande mostrar os filhos os presépios ali construídos; que o moçambicano Jesuíno possa ir com os filhos até à praia (mesmo que a água esteja fria, penso que compensa); que o brasileiro Vladimir consiga comprar e enviar as prendas para os familiares; que o estudante de S. Tomé consiga também construir um “Pacu Fia Glêsa”. Que neste Natal e nos seguintes possamos todos, independentemente da origem, da cor e religião, concretizar os nossos desejos. Por mais básico que elas sejam, como, por exemplo, ter a família por perto. Os meus sinceros votos de um Santo Natal e de um Ano Novo repleto de felicidades para todos. Por: Paulo Mendes ( Açoriano Oriental)

Publicado: Sbado, 24 Dezembro, 2005

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