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Filhos dificultam adaptação de brasileiros retornados

A missão de reconstruir a vida, já de si difícil para o imigrante que decide voltar para o país de origem, pode tornar-se ainda mais delicada quando há filhos envolvidos.

Mulheres que imigram sozinhas, deixando os filhos sob o cuidado de amigos ou parentes, fazem parte do grupo que enfrenta mais problemas no retorno às origens, explica Dalila Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher da Infância e da Juventude (ASBRAD), uma das entidades que ajuda na readaptação dos brasileiros que retornam de Portugal.

Um dos principais motivos é financeiro. A migrante, ao enfrentar o desemprego no exterior, vê-se obrigada a interromper o envio de dinheiro para a família, transferindo para os parentes os gastos com as crianças, o que costuma resultar em conflitos.

Há ainda a questão dos laços afetivos. Dalila Figueiredo citou o exemplo de uma jovem mãe que sua entidade atendeu. Foi só com a intervenção da ONG que a tia da retornada aceitou desistir da guarda das crianças que ficaram ao seu cuidado durante cinco anos.

Vanilda Martins, 42 anos, conseguiu evitar esse problema no seu regresso ao Brasil. Depois de tentar uma oportunidade em todos os programas de habitação social do governo brasileiro, ela emigrou para Portugal com o objetivo de juntar dinheiro e comprar uma casa no seu país de origem.

Para cumprir seu plano, precisou deixar os dois filhos com a avó. Durante os sete anos em que ficou longe do Brasil, porém, Vanilda Martins manteve uma rotina de telefonemas diários para as crianças "para não deixar de cumprir seu papel de mãe".

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) recebeu, no ano passado, 2114 pedidos de imigrantes em Portugal para regressarem aos seus países de origem, dos quais 594 embarcaram.

Segundo os dados globais fornecidos à agência Lusa pelo escritório da OIM em Portugal, os brasileiros lideram a lista de inscrições e de regresso efetivo, ao abrigo do Programa de Retorno Voluntário (PRV). Em 2011, 84,2 por cento dos pedidos de retorno foram feitos por imigrantes brasileiros, que lideram também o retorno a nível mundial.

O receio de não ser bem-recebida também chegou a atormentar Magaly Ferraz da Silva, 50 anos, que viajou para Portugal com a intenção de ficar três meses, mas acabou por passar nove anos.

A brasileira vivia com a filha mais nova em Lisboa e tem um filho casado na Alemanha. No Brasil, com o ex-marido, estavam outros dois filhos que, para seu alívio, a receberam "como se nunca tivesse ido embora".

"Você passa muito tempo fora de casa e, quando volta, parece que está num novo planeta", afirma a retornada, que montou uma pequena confeção no interior de São Paulo.

Para a família de Cristina Alves de Sousa Cravo, que dividiu 10 anos de sua vida entre a Ilha da Madeira e Braga, o principal problema na readaptação foi o reconhecimento dos estudos das crianças.

Devido à burocracia para validar os papéis fornecidos pelas escolas portuguesas, a família - que voltou ao Brasil há pouco mais de um ano - não conseguiu matricular os filhos em escolas públicas.

Por esse motivo, nos primeiros meses após o regresso ao Brasil, quase toda a ajuda financeira obtida para o retorno voluntário foi usada para pagar um colégio particular, o que evitou que as crianças perdessem um ano de estudos.

DN Portugal, 12 de Fevereiro de 2012. 

Publicado: Tera, 14 Fevereiro, 2012

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