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10 milhões à porta… olhe que não - Artigo de Paulo Mendes

Nem mais nem menos: 10 milhões de imigrantes é o número que o candidato Cavaco Silva estima que, no futuro, poderão estar à porta da nação portuguesa, caso não venha a existir uma política correcta de controlo dos fluxos migratórios. Depois da respectiva entrada, nos dias seguintes todos vão querer ser portugueses, segundo a visão do professor. Poderiam ser perfeitamente 8 ou 7 milhões, mas não: serão 10 milhões que, por acaso, correspondem ao volume populacional do país. No entanto, no debate com o candidato Jerónimo de Sousa, Cavaco Silva mudou o discurso e, quase de certeza, foi um dos seus assessores que lhe deixou um bilhete com a rectificação do que tinha dito no debate anterior. Apesar do discurso politicamente correcto que utilizou neste último debate, ficou a forma míope e terrivelmente provinciana como abordou a imigração: se no passado recente o receio se relacionava com a invasão espanhola, hoje as atenções deverão centrar-se na invasão dos imigrantes famintos e que em pouco tempo irão colocar em causa o tecido cultural, político e social da nação portuguesa. O candidato Cavaco Silva passou a mensagem da vitimização, ou seja, de que Portugal poderá ser invadido e, por consequência, dever-se-á ter uma atenção particular em relação aos outros, aos estrangeiros. Uma percentagem significativa dos portugueses construiu uma imagem de rigor do candidato Cavaco Silva, o que significa que muito do seu discurso é facilmente absorvido por esta percentagem da população. A forma como abordou o problema da imigração é desprovida de razão na forma e no conteúdo. Nos processos eleitorais, genericamente, os portugueses não decidem com base em factos concretos, isto é, não é uma decisão politicamente informada. Isto quer dizer que as palavras e a forma como se faz o discurso têm o peso considerável no processo de decisão. Tendo em conta que a maioria do eleitorado conhece muito mal as propostas concretas dos candidatos, as palavras ganham um peso ainda maior, sistematicamente ampliado pela comunicação social e acabando por constituir um dado adquirido. Não estou a dizer que neste aspecto a realidade portuguesa é pior ou melhor do que a dos outros. É uma constatação que alguns estudos realizados nesta matéria têm suportado. Se algumas pessoas já tinham dúvidas sobre a imigração, hoje, já não as têm graça às palavras do candidato Cavaco Silva. O debate da imigração em Portugal é altamente mal informado e reducionista e, sendo o tema complexo, é absolutamente importante a comunicação de um discurso ponderado e realista, de forma a minimizar alguma tensão que poderá existir. O candidato Cavaco Silva, estando sempre a referir a urgência da inovação do país, deverá perceber que a inovação não é exclusivamente económica e tecnológica. Um Presidente da República deverá, também, ser um actor activo para a promoção da inovação cultural, social e mental do país. Não vale pena, por exemplo, que Portugal envie um astronauta para Marte nos próximos tempos, prevalecendo, no entanto, numa parte significativa da sociedade portuguesa uma mentalidade fechada e pouco adaptada às novas realidades. Por outro lado, o discurso do Candidato Cavaco Silva (no primeiro debate) não tem nenhum suporte real ou científico. Tomemos o caso português como exemplo. Todos sabemos que foram muitos os portugueses que emigraram para outros países à procura, legitimamente, de melhores condições de vida. Porém, e na sequência da adesão do país à União Europeia e do estabelecimento da livre circulação de pessoas no espaço Schengen, não se assistiu a um êxodo dos portugueses para os mais ricos da união europeia, nomeadamente França e Alemanha. Um outro exemplo: como consequência da integração dos países da Europa Central na União Europeia, foi elaborado um estudo onde se evidenciou que, nos países onde foi permitida a livre circulação dos cidadãos dos novos estados aderentes (nomeadamente no Reino Unido, Irlanda e a Suécia), os números de imigrantes provenientes daqueles países se revelaram perfeitamente “geríveis e benéficos”. Poderia citar outros casos já estudados onde, mediante a implementação de livre circulação de pessoas, não se registou nenhuma invasão. Portugal é um dos países da EU com menor percentagem da população estrangeira (2,1%). No Luxemburgo 37 % da população é estrangeira (na sua maioria portugueses), Suíça (19,5%), Alemanha (9%), Bélgica (8.5%) França (6.3%), Suécia (5.5%) etc. A imigração, para além de ser necessária, constitui um dos fenómenos com maior expressão na actualidade. Por isso, é urgente uma nova organização social, política e, sobretudo, de mentalidade no sentido de aceitarmos este novo mundo. Neste campo, os políticos têm de ter um papel decisivo na construção desta nova mentalidade. Pessoalmente, entendo que, face ao cenário actual, os países devem ter mecanismos que permitam algum controlo nos fluxos migratórios. No entanto, isto é completamente diferente de assumir uma postura de receio em relação aos estrangeiros completamente deslocada da actual realidade, reforçando junto da população portuguesa alguns dos mitos e preconceitos em relação à imigração. É por essas e por outras que eu não gostaria, sinceramente, de ver o candidato Cavaco Silva na presidência da República Portuguesa. Por essas e por outras, não terá o meu voto. Recuso-me a ter um Presidente que promova o retrocesso da nossa mentalidade. Ah! Já tinha esquecido. Não posso votar. PS O artigo foi enviado para a sede de candidatura do candidato Cavaco Silva. mendespaulo@gmail.com

Publicado: Quinta, 15 Dezembro, 2005

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