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Crise força a volta de brasileiros

A pior crise econômica dos últimos 70 anos poupou o Brasil. Mas, para milhares de brasileiros no exterior, a recessão os transformou em algumas das vítimas mais afetadas. Em quase todos os países atingidos, os imigrantes foram os primeiros a ser demitidos. Hoje, três anos depois da eclosão da crise, um número cada vez maior de brasileiros que vivia na Europa e no Japão tomam o caminho de volta para casa, em busca de uma melhor situação em sua própria terra. O fenômeno tem chamado a atenção tanto de organizações internacionais quanto do Itamaraty, que já mobilizou suas embaixadas pelo mundo para fazer um censo de qual é o real volume desse fluxo migratório de retorno ao Brasil. Ninguém sabe dizer exatamente quantos são os brasileiros que estão abandonando Portugal, Espanha, Bélgica, Japão ou Irlanda. Mas, em todas essas economias, autoridades e ONGs confirmam que a tendência é real e cada vez mais intensa. Enquanto na Europa, desde 2007, são 4 milhões de novos desempregados, a economia brasileira gerou mais de 3 milhões de postos de trabalho nesse período. No total, 3 milhões de brasileiros vivem no exterior. Desses, 810 mil estão na Europa. Mas o Itamaraty admite que os números são de 2009 e, segundo o Estado apurou, encomendou a suas embaixadas um novo levantamento, que deve ficar pronto em setembro. O objetivo é entender como a crise nos países ricos afetou a situação dos brasileiros. Ainda que os números totais não sejam conhecidos, o governo admite que o fenômeno do retorno é real. Em setembro de 2010, o Itamaraty chegou a elaborar uma cartilha para ajudar no regresso. No Ministério do Trabalho, já se pensa em como aproveitar o treinamento adquirido por esses brasileiros na economia local. O caso de Portugal talvez seja o mais emblemático para os brasileiros na Europa. O país vive uma profunda crise e o desemprego é o maior em 30 anos. Segundo um estudo do Instituto Universitário de Lisboa, lançado há duas semanas, a crise tem sido o principal fator para o retorno dos brasileiros. Outro levantamento da mesma instituição, feito com 1.400 imigrantes brasileiros, revelou que um terço tinha planos de deixar a Europa. Se o número total de retornos é difícil de ser estabelecido, entidades apontam para alguns indicadores que confirmam a tendência. Um dos mais importantes é o número de brasileiros que teve de socorrer à ajuda do Estado português ou de entidades internacionais para fazer o caminho de volta. Em muitos casos, brasileiros ficaram sem dinheiro para comprar a passagem para voltar para casa e a Organização Internacional de Migrações (OIM) passou a pagar o retorno dessas pessoas. Segundo Isabela Salim, do escritório da OIM em Lisboa, o número de brasileiros assistidos desde 2009 registrou um aumento importante. Em 2009, 315 brasileiros tiveram suas passagens compradas pela entidade para voltar ao País. Em 2010, esse número saltou para 562 brasileiros - um aumento de 78%. O volume se manteve elevado no primeiro semestre de 2011, com 271 retornos de brasileiros. A maioria dos beneficiados volta para Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, São Paulo e Paraná. O programa não atende apenas cidadãos do Brasil, mas a OIM aponta que mais de 80% da ajuda que dá hoje é a brasileiros. Os brasileiros não foram os únicos a deixar Portugal. Dados oficiais do governo mostram que, em 2010, houve menos estrangeiros se estabelecendo no país que o número de pedidos de ajuda para regressar a seus locais de origem. Entre 2009 e o ano passado, o governo de Lisboa recebeu 47% a mais de pedidos de ajuda de estrangeiros para voltar a seus países - 80% das 559 pessoas com seu retorno financiado eram brasileiros. Renan Paes Barreto, cônsul geral do Brasil em Portugal, disse que não acredita que haverá mais a "imigração indiscriminada de brasileiros para Portugal", como ocorreu nos anos 80 e 90. A Espanha vive uma situação parecida com a de Portugal. Diante de um desemprego de 20% - que chega a 35% entre os imigrantes -, a Espanha tem visto uma fuga de estrangeiros do país e, pela primeira vez em um século, teve uma queda de sua população total. A redução foi de apenas 28 mil pessoas. A carioca Daiana Kishimoto, de 28 anos, transitou entre esses dois cenários de recessão. Em 2009, foi com o então marido para Lisboa, onde ele faria um mestrado em sua área. Ela tinha a vantagem de ter a cidadania portuguesa. "Encontrei dificuldade para me sustentar", diz a designer de interiores. Em Portugal, explica, há poucos jovens, já que eles deixam o país para buscar oportunidades na Inglaterra e na Alemanha. Depois de se separar do marido, Daiana tentou a sorte em Madri. Também não conseguiu emprego em sua área e acabou trabalhando como babá, garçonete e vendedora. "Isso porque eu tenho cidadania europeia. Se não tivesse, nem isso teria conseguido." Há quatro meses, voltou ao Rio, mas ainda sonha em morar nos Estados Unidos. Em 2010, 464 mil imigrantes chegaram à Espanha, 53% a menos que três anos antes. Além disso, 373 mil deixaram o país, um volume 87% superior à taxa de 2007, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas. Em 2011, essa tendência se aprofundou. Desde janeiro, mais 295 mil pessoas deixaram a Espanha. Entre os latino-americanos, houve um volume maior de saída que de chegadas já em 2010. Segundo os dados oficiais, 128 mil latino-americanos desembarcaram como imigrantes na Espanha em 2010, 60% menos que em 2007. Mas 129,5 mil abandonaram o país. Na Bélgica, a situação também revela a deterioração da vida dos brasileiros que tentaram a sorte no país. A OIM financiou o retorno de 915 brasileiros da Bélgica em 2010 que haviam ficado sem recursos. Segundo dados fornecidos por Gerlandine D"Hoop, do escritório da OIM em Bruxelas, dez anos antes apenas 14 brasileiros haviam feito o pedido de ajuda. Foi mesmo a partir de 2008 que os números explodiram. Naquele ano, já foram 687 brasileiros que entraram no programa. Em apenas cinco meses de 2011, o número já chega a 320. O que se percebeu também foi a redução do desembarque de novos imigrantes brasileiros na Europa. Entre 2008 e 2010, o número de brasileiros detidos nos aeroportos caiu em mais de 40%. Entre os imigrantes ilegais vivendo na Europa, o número e brasileiros foi reduzido para menos da metade. Segundo dados da UE, os brasileiros ainda foram a sexta população com maior número de imigrantes ilegais vivendo na Europa em 2010. Há apenas dois anos, os brasileiros eram a terceira maior população de ilegais.

Correio do Estado, 7 de Agosto de 2011.

Publicado: Domingo, 07 Agosto, 2011

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