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"América". A terra dos sonhos está por cumprir na margem errada da vida

Retrato de um estado de espírito português pela lente dos imigrantes. A primeira longa-metragem de João Nuno Pinto estreou ontem
A Lisboa cosmopolita, que há muito deixou de ser uma sociedade homogénea, desfila ao longe. Estamos na outra banda, na margem onde a vida escapa, porque a gente se ancorou de tal maneira num modo de estar que não escapa desta geografia de cores desmaiadas. Não falamos só de espaço, de território perdido num mapa de agonia. Falamos sobretudo de tempo. No tempo de um país transformado numa América dos pobres. "É aquilo em que a Europa se está a transformar nas últimas décadas. Acontece um pouco por toda a civilização ocidental, talvez mais acentuado nos países mediterrânicos, pela crise política, de valores, pela falta de caminhos."

Estamos na Cova do Vapor, como poderíamos estar num outro chão fundo; metáfora de um mundo novo importado da terra de todas as promessas risonhas, onde a habilidade fraqueja. Um reduto de malandros com bom coração, de desenrasque espertalhão, à medida do país da safa imediata, e efémera. "Existe este lado de uma nova terra de oportunidades. Esta gente procura uma nova vida, mas enquanto a América original era a terra das oportunidades, Portugal não funciona assim. Em vez de ser uma rampa de lançamento, é um local onde as pessoas ficam encalhadas na promessa. Há muitos imigrantes que querem voltar para os seus países de origem, e muitos portugueses que querem sair".

João Nuno Pinto, 42 anos, realizador publicitário, fez-se ao caminho das longas-metragens com "América". O filme, que adapta o conto "Criação do Mundo", de Luísa Costa Gomes, integrou a competição nacional do festival IndieLisboa, de onde saiu com o prémio AIP de Melhor Imagem, depois de ter conquistado o troféu de Melhor Realização na 15.a edição do Festival Internacional de Cinema de Sófia, Bulgária.

Um filme sobre quem cá está. Sobre quem chega. Uma longa que não se esgota na imagem dos trâmites burocráticos, das movimentações ilegais, das negociatas clandestinas, de uma margem poliglota sem ponto de fuga. "É um filme sobre o Portugal actual segundo o ponto de vista dos imigrantes. Foi essa a minha intenção. Um retrato de Portugal, de um certo estado do espírito e da falta de perspectiva que se vive cá, mas com um olhar externo, para mostrar contrastes, diferentes comportamentos."

Russos, africanos, brasileiros, espanhóis. Estrangeiros na senda de um passaporte e outros tantos que os despacham por melindrosas portas e travessas. Há um toque de humor nesta babel sem esperança, não fosse este o país que muitas vezes não tem outro remédio senão rir de si próprio. "Tanta coisa para serem e querem ser logo portugueses?!" É bom que se note que este humor com cara negra se cola à esperança. "Apesar de ser um olhar muito crítico, também é um acto de amor pelo país. Temos um potencial incrível que desperdiçamos."

Esta co-produção internacional entre Portugal, Espanha, Rússia e Brasil, cuja produção em solo português esteve a cargo da Garage e da Ukbar Filmes, é protagonizada pela actriz russa Chulpan Khamatova (Luna Papa, Good By Lenine), a quem se juntam no elenco Fernando Luís, María Barranco, Dinarte Branco, Cassiano Carneiro e Raul Solnado, naquela que é sua última participação no cinema. "O Melo representa um falsário de um Portugal ainda com valores, Foi uma grande insistência minha. Já sabia quem queria para aquele papel. Queria que por si só ele já transmitisse essa energia."

Foi preciso partir muita pedra para chegar ao casting desejado. Aliás, entre a ponta do cordel de "América" e a sua estreia decorreram oito anos. "A montagem financeira desta primeira obra demorou muito tempo. E ainda juntar actores de tantas nacionalidades, coordenar com uma equipa técnica internacional. No final já tinha uma dor de cabeça, mas foi maravilhoso."

Além da publicidade, João Nuno Pinto é um dos sócios do Clube Ferroviário, o bar-terraço com vista para o Tejo, paredes meias com a estação de Santa Apolónia, que ajudou a arrumar as ideias quando "América" ficou concluída. "A sociedade no Ferroviário foi uma brincadeira. Depois de acabar o filme ficou um vazio e precisava de um escape. Começou de repente, para não ficar sem nada. Agora estou em fase embrionária de pesquisa, mas nem sei se será o próximo filme."
I online, 27 de Maio de 2011.


Publicado: Sexta, 27 Maio, 2011

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