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Imigração feliz

Uma miss, um empresário, uma apresentadora de TV, um activista e um político; para eles, Portugal é mesmo terra de oportunidades.

Fizeram as malas com a coragem de deixar quase tudo para trás e perseguir o sonho comum a todos os imigrantes: viver uma vida melhor, mais fácil, com maior possibilidade de escolhas. A maioria chega a Portugal ainda jovem para engrossar a mão-de-obra, diversificar as escolas e colorir as ruas das cidades. Uma apresentadora de televisão, uma miss, um empresário, um activista premiado e um político fazem a diferença numa massa anónima onde também há casos de verdadeiro sucesso.

O OBAMA DA AMADORA

Quando em 2009, por altura das eleições autárquicas, os carros de campanha do Movimento Intervenção e Cidadania pela Amadora cortavam as ruas da cidade com a música no volume máximo e cartazes com o rosto de Francisco Pereira impresso, a população parava para comprovar o inédito: o mais novo (29 anos) e único candidato autárquico imigrante do País ousava tentar o bastião de Joaquim Raposo como candidato independente.

Nascido em 1980 na ilha de Santiago (Cabo Verde), Francisco começou a trabalhar no campo aos sete anos. Aos 11, perdeu o pai e fez-se homem mais depressa. Sempre com a escola e o trabalho de braço dado, chegou aos 18 anos a Portugal para concluir o 12º ano, pagando os estudos como servente na construção civil e a trabalhar na antiga Lisnave. Contornando o previsto, ganhou ‘tarimba e Coimbra’. Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais, somou mais uma pós-graduação e um mestrado e é um dos investigadores do Centro de Estudos de Migrações da Universidade Aberta. Sabe que o seu percurso não foi "fácil nem óbvio", mas nunca perdeu tempo com autocomiseração. Apaixonado pela política, Francisco vê nela a forma de "estar perto das populações, de ajudá-las", no fundo, a vê-las também concretizar o seu sonho. Aflige-o a "falta de emprego, de creches, de serviços de saúde de qualidade e por isso era preciso mudar". Depois das eleições, nada mudou na câmara municipal, mas da alcunha de ‘Obama da Amadora’ já ninguém livra Francisco, que chegou onde nenhum outro partido conseguiu. "Tive o privilégio de entrar em todos os bairros. Nenhum político nem polícia entra no 6 de Maio", conta. Quer recandidatar-se, mas até lá concentra-se nos dois filhos e na tese de doutoramento. Não se considera um imigrante de sucesso, "apenas alguém que faz aquilo que deve ser feito".

ACTIVISTA ‘BUÉ FIXE’

Naquele mesmo concelho, Dynka Amorim acredita pouco na política, mas muito no "ser humano" e, por isso, dedica grande parte do seu tempo a salvar vidas, "prevenindo, informando" sobre os riscos do VIH/Sida. Também ele entra pelos bairros degradados da Amadora sem medo e sem risco, onde os moradores já conhecem o jovem são-tomense de 26 anos que vai distribuir a revista da associação juvenil que fundou, a Bué Fixe, preservativos ou simplesmente conversar sobre outros problemas do bairro. Quando veio para Portugal, aos 19 anos, viveu em bairros degradados e fora deles. Em todos deixou amigos. "Aqui, soma-se a desintegração, que leva as pessoas a não conhecerem os seus direitos à educação, à saúde, a uma vida sem violência. O VIH não escolhe raças, mas as pessoas mais vulneráveis correm mais riscos", justifica. Quando cá chegou, conseguiu o estatuto de residente e o sustento com um contrato de trabalho na Pizza Hut, que conciliava com os estudos. Hoje, além da Bué Fixe, faz um programa na RDP África, é vice-presidente da ONG Cidadãos do Mundo e ainda estuda Ciência Política e Relações Internacionais. Não admira que a MTV Stying Alive Foundation o tenha distinguido com um prémio de cidadania, que recebeu em Bruxelas em Novembro. E garante que é assim que vai continuar.

DO BRASIL PARA BRAGANÇA

Katherine Oletriz não passou por bairros degradados, mas sentiu na pele a discriminação quando, acabada de chegar ao País, estalava o escândalo das ‘Mães de Bragança’. "Tinha vindo cá antes e adorado, mas de repente não reconhecia este país", conta. Talvez por ser estudante de Psicologia, a actual Miss Mundo brasileira, residente em Portugal, depressa percebeu que mal lhe assombrava a alma: "Passados os primeiros seis meses de encantamento, o choque com uma realidade cultural diferente é muito grande. Mas não é o meio que nos exclui, somos nós que não estamos dentro do meio." Mas a terra de Camões revelou-se um mar de oportunidades para a jovem modelo. "Quero conciliar tudo: a moda, a minha actividade como fotógrafa, as minhas obrigações de miss e o interesse pelo teatro e o psicodrama, pois foi essa vertente que me atraiu na psicologia. Aqui em Portugal está correndo bem", garante.

NEGÓCIO DE 1500m2

 É com o peito cheio de orgulho que Wang Nanping mostra os cantos do seu gigantesco armazém de produtos chineses com 1500 metros quadrados na estrada da Serra da Mira, um dos maiores do distrito de Lisboa. É ali que passa 12 horas do seu dia, fazendo jus à fama que o seu povo carrega de ser apegado ao trabalho. Veio de Zhejiang com apenas 17 anos para ir trabalhar na copa do restaurante do irmão, em Alcácer do Sal. Ficou farto de "limpar mesas e tirar cafés" e logo ali decidiu que, um dia, haveria de fazer "algo diferente", objectivo concretizado há quatro anos com a abertura da loja. A língua, que ainda hoje tem dificuldade em dominar, foi a grande barreira à chegada. Mas fora os sujeitos e os verbos, Portugal é o ‘el dorado’ de Wang. "Gosto muito de futebol, coisa que lá na China praticamente não existe, marisco e bifes com batatas fritas", confessa, com o sorriso rasgado a sobressair no corpo franzino. Por cá, casou-se com Xusuyan, de 26 anos, e viu nascer o primeiro filho, Wang Junkai, que com três anos já anda no jardim-de-infância e "fala perfeitamente português". A China, agora, é que só para férias. "Não quero voltar. O tempo cá é muito melhor. A comida. As pessoas são simpáticas. Gostamos muito de cá estar." As saudades da família afagam-se pelo telefone e pela internet. Trabalha 365 dias por ano, tal como faria na China, onde não há direito a folgas nem feriados, mas o tempo livre passa-o a ver televisão ou a conviver com os amigos que tem, em igual proporção entre chineses e portugueses. Pela renda do armazém – onde conta com várias empregadas de origem brasileira –, paga cerca de 11 mil euros mensais, mas não se assusta com a crise. "Temos vendido menos, mas mesmo assim os lucros permitem viver muito confortavelmente." Só os roubos o tiram do sério, pela impunidade, que não consegue compreender à luz da sua cultura. Aos 30 anos, pouco mais tem por concretizar em terra alheia. "Sou muito, muito feliz! E bem-sucedido!" diz Wang Nanping, para que não restem dúvidas.

CARA DA TELEVISÃO

Já Viktoriya Starchenko, actualmente co-apresentadora do programa ‘Nós’, da RTP 2, não queria acreditar na oportunidade que a vida lhe estava a dar quando, aos 16 anos, os pais a quiseram trazer para Portugal. Para a adolescente, Portugal era deslumbrante: "A vida mais fácil e os dias cheios de sol, que via nas fotografias." "Por ser ainda criança quando os meus pais me deixaram na Ucrânia, tive de crescer muito depressa. Estudava, trabalhava, ajudava a minha irmã e a minha avó. Mas os miminhos deles faziam-me falta, a saudade era mais do que muita", relembra. Filha de um engenheiro e de uma conselheira e relações-públicas, que em Portugal (Caldas da Rainha) trabalhavam como caseiros, Viktoriya chegou a Portugal num dia quente de Agosto, tal como nos seus sonhos de menina. O início do ano lectivo em Setembro, porém, trouxe o confronto com a realidade. "Não entendia nada do que os professores diziam e no meu primeiro teste tive um 4. Logo eu, que na Ucrânia tinha média de 19. Chorei muito, muito. Mas depois fui aprendendo e cheguei ao fim do ano lectivo com média de 11,5. No ano seguinte, terminei o Secundário com 16", recorda. Entrou para o curso de Relações Internacionais, findo o qual arranjou estágio na produtora Companhia das Ideias. Daí a porem-na à frente da câmara com um microfone na mão, para apresentar a rubrica ‘Nós por Aí’, foi um passo. Aos 22 anos, Viktoriya não tem dúvidas: "Sem querer parecer convencida... sou uma imigrante de sucesso, sobretudo porque sou o mais real exemplo de que os sonhos podem concretizar-se."

 NOTAS

MEIO MILHÃO Estima-se que actualmente vivam em Portugal cerca de meio milhão de cidadãos estrangeiros.

IDADE A maioria dos estrangeiros em Portugal é do sexo masculino e tem idade compreendida entre os 20 e os 45 anos.

FIXAÇÃO É nos distritos de Lisboa (52%), de Faro (14%) e de Setúbal (11%) que reside a vasta maioria da população estrangeira.

POPULAÇÃO O fluxo de imigrantes contribuiu em 22% para o acréscimo do volume populacional observado em Portugal na década de 90.

ORIGEM Cerca de 55 % do imigrantes têm origem em países lusLófonos, 28% em países da União Europeia e 11% em países da América do Sul.

Correio da Manhã, 24 de Abril de 2011.

Publicado: Quarta, 27 Abril, 2011

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