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B.I. A câmara que mostra o que a Câmara não vê

A nova série da RTP 2 estreia hoje e põe câmaras de filmar nas mãos de miúdos de bairros problemáticos do país. A realizadora venceu o doclisboa de 2010.
Num dos bairros mais problemáticos de Coimbra, o Ingote, Solange Cardoso sonhava ser a próxima Kusturica e queria gravar uma curta-metragem num casamento cigano. O problema é que apesar de pertencer à comunidade, a rapariga de 12 anos não conseguia convencer a família a receber a equipa de filmagens na festa - que dura no mínimo dois dias. "A comunidade é muito fechada e não se conseguiu mostrar nada do casamento", conta Filipa Reis, de 33 anos, realizadora da série "B.I.". "Acabámos por gravar numa festa de anos cigana, numa casa só com mulheres, onde as raparigas fizeram um filme para encontrar noivo."

No programa que estreia amanhã na RTP 2, 32 jovens de quatro bairros problemáticos do país (o Ingote, em Coimbra, a Bela Vista, em Setúbal, a Apelação, em Loures, e o Casal da Mira, na Amadora) participam num workshop de cinema e andam de câmara na mão pela zona onde cresceram - são dos poucos que se podem gabar de filmar sem correr o risco de serem assaltados. "Têm entre 13 e 20 anos e são filhos de imigrantes ou de portugueses com outras origens", explica Filipa, a coordenadora do projecto.

Durante as férias da Páscoa e de Verão, a produtora Vende-se Filmes andou à procura de pequenos realizadores em "bairros de realojamento". As minorias étnicas e a exclusão social não eram temas novos para a equipa. No ano passado, Filipa Reis e João Miller Guerra (um dos três realizadores que deram formação aos miúdos da série) venceram a competição nacional do festival doclisboa com o filme "Li Kê Terra", passado no Casal da Boba, na Amadora. "É sobre dois portugueses de origem cabo-verdiana que eram apátridas porque não tinham documentos nem de Portugal nem de Cabo Verde. É sobre essa procura da identidade", esclarece Filipa.

Em "B.I.", os miúdos também explicam a sua identidade com pequenas curtas. "Há temas como o bullying na escola, o casamento cigano, histórias de amor entre jovens de raças diferentes, futebol feminino ou moradores a defenderem o seu bairro, normalmente conhecido por coisas menos boas."

Os treze episódios da série, de 25 minutos cada, são uma mistura entre um concurso e um documentário. No fim haverá uma curta vencedora e um prémio "simbólico": 1500 euros de formação na Restart, escola de audiovisual em Lisboa. Durante os episódios acompanhamos os workshops e conhecemos costumes diferentes, do Leste até África.

Ionline, por Clara Silva, Publicado em 02 de Abril de 2011.   

Publicado: Segunda, 04 Abril, 2011

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