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Media: Imprensa portuguesa mais favorável à

A imprensa está a evoluir. Em 2004, houve um tratamento noticioso mais favorável à imagem dos imigrantes e das minorias étnicas, revela o relatório Imprensa 2004, do SOS Racismo. A associação lançou, em Setembro de 2003, um blogue com notícias resumidas sobre discriminação racial e imigração. Fontes: media que disponibilizam os seus conteúdos na Internet. Meta: "reflectir a imagem" transmitida pela imprensa nacional sobre estas matérias sensíveis. O relatório traça uma cronologia das notícias publicadas, através das quais descreve o que ocorreu no país em matéria de discriminação racial e imigração. E integra reflexões sobre o comportamento dos meios de comunicação social nestas áreas — do sub-director do PÚBLICO Amílcar Correia, da investigadora Isabel Ferin da Cunha e da advogada Mónica Catarino Ribeiro. Ao todo, foram analisadas 927 notícias. "Mais de metade (55 por cento) são dedicadas à imigração", indica o documento. Um terço destas debruça-se sobre políticas — com destaque para a regulamentação da Lei da Imigração e para o processo de legalização dos brasileiros. Porção idêntica trata acções de fiscalização associadas a cidadãos indocumentados ou suspeitos de crime. À volta de 10 por cento das notícias analisadas são relativas à comunidade cigana, "relatando sobretudo situações de precariedade na habitação (35 por cento) e criminalidade (12 por cento)". Há "algumas referências à venda ambulante e actividades culturais", refere o relatório. Mas o que agitou mais os media foi a atitude xenófoba de alguns pais de alunos de duas escolas (Viseu e Bragança) e as práticas de mendicidade de cidadãos romenos. "De uma forma geral, os conteúdos veiculados sobre imigrantes e minorias procuraram matérias alternativas às tradicionais, normalmente centradas no crime e na violência", avalia Isabel Ferin da Cunha, do Instituto de Estudos Jornalísticos. "Apesar destas matérias continuarem a ter grande visibilidade, tal como acontece com todas as bad news na sociedade", verifica-se um investimento em aspectos como o trabalho, as políticas de imigração e a integração. Mais contenção na TV As políticas de imigração foram mesmo "alvo de particular atenção". E a integração mereceu "proporcionalmente" maior destaque. Neste campo, sublinha Isabel Ferin da Cunha, deu-se maior enfoque '"às novas imigrações', como as comunidades de origem chinesa, hindu, muçulmana e islâmica, bem como as comunidades originárias dos países de Leste". Os temas mais protagonizados pela etnia cigana, escreve Isabel Ferin da Cunha, são os mesmos de anos anteriores. Todavia, "duas novas perspectivas surgiram este ano": uma evidencia "as mediadores sociais ciganas e o seu papel nas escolas e nos bairros", a outra valoriza "o papel dos dirigentes das associações ciganas no debate de problemas próprios à sua comunidade". Na óptica da investigadora, as formas de tratamento da imigração e das minorias evoluíram em 2004. Na imprensa de referência "houve uma aquisição de práticas que reflectem um maior conhecimento da temática" e "uma preocupação cívica" no modo como se apresentam essas comunidades. A maior mudança, porém, considera, surge nas televisões. Ressalta aqui, e "em contraste com os anos anteriores, a contenção na linguagem e a diminuição da poluição visual". Há uma diminuição de peças "compensada pela qualidade da informação veiculada e extensão" de parte delas. Amílcar Correia faz um balanço desde 1989, ano em que morreu um militante do PSR às mãos de cabeças rapadas. Reconhece melhorias, mas adverte: o jornalismo actual, "para poder fazer o seu trabalho convenientemente, tem de deixar de repetir os mesmos estereótipos de sempre quando se refere às comunidades ciganas e estrangeiras". "Porque há ainda um racismo subterrâneo que teima, de quando em vez, em espreitar a luz do dia", conclui. Violência policial em primeiro plano A violência policial contra indivíduos pertencentes a minorias étnicas e alguns casos de "manifesto racismo Institucional" surgem em primeiro plano no relatório Imprensa 2004 do SOS Racismo. O SOS "recebeu" em 2004 "mais de uma dezena de denúncias de violência policial contra indivíduos pertencentes a minorias étnicas", anuncia o documento. Dos casos deram notícia, destaque para a demissão do comandante da Polícia Municipal de Lisboa, que desaconselhou a realização de arraiais populares no Martim Moniz, por ser frequentado "por gente de tez negra, toxicodependentes e pessoas que se prostituem". Para o SOS, "o racismo institucional parece ser transversal": "É o caso da instalação dos segregacionistas Centros de Apoio a Imigrantes, as chamadas lojas do cidadão para o imigrante, patrocinadas pelo Alto-Comissário para a Imigração e para as Minorias Étnicas." A nota positiva vai para a transposição para a legislação nacional da directiva europeia sobre a igualdade de tratamento dos cidadãos — sem distinção de origem étnica. Com isto, passou para a defesa a responsabilidade de provar que não violou o princípio da igualdade. Não houve "melhoria das condições de acolhimento dos imigrantes no pais, pelo menos proporcional às necessidades", critica o SOS. "São de salientar os problemas de pobreza e de exploração no trabalho e as denúncias de discriminação", clarifica, dando "nota positiva às diferentes iniciativas de apoio ao imigrante". A.C.P. Público Publicado em 14-06-2005

Publicado: Quinta, 16 Junho, 2005

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